0# CAPA 22.7.15

VEJA
www.veja.com

Editora ABRIL
Edio 2435  ano 48  n 29
22 de julho de 2015

[descrio das imagens: no centro da capa, a foto de Eduardo Cunha, abaixo Lula de um lado e noutro foto de carros, helicpteros e notas de dinheiro.  Na parte superior, foto pequena de Collor. Cada uma das fotos com ttulos prprios.]

Em cima do nome da revista (VEJA) est uma faixa escrito SENSACIONAL e logo abaixo PREVISO DO TEMPO EM BRASLIA: chuvas fortes e trovoadas.
EDITORIAL
SENSACIONALISMO? NO. SENSACIONALISTAS SO OS FATOS!

[foto de Eduardo Cunha]
O PRESIDENTE DA CMARA, EDUARDO CUNHA, DESAFIA A PF E O GOVERNO: TEM UM BANDO DE ALOPRADOS NO PLANALTO

[foto de color]
FEDERAIS APREENDEM FROTA DE CARROS DE LUXO DE COLLOR, EX-PRESIDENTE DA REPBLICA ABASTECIDO POR DOLEIRO

[foto de Lula]
OUTRO QUE GOERNOU O BRASIL, LULA EST NA MIRA DO MINISTRIO PBLICO FEDERAL.

[foto de carros, dinheiro...]
DOCE VIDA EM BRASLIA
HELICPTERO, FERRARI, LAMBORGHINI E, EXCLUSIVO, AT UM ROLLS-ROYCE

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 22.7.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  AS LIES VINDAS DA GRCIA
     1#3 ENTREVISTA  JOS EUSTQUI ALVES  DEMOS AS COSTAS AO BNUS
     1#4 LYA LUFT  PTRIA MADRASTA
     1#5 LEITOR
     1#6 BLOGLOSFERA

1#1 VEJA.COM
AS MAQUINAS FARO SEU TRABALHO?
Com a evoluo das tecnologias de inteligncia artificial (IA), em poucas dcadas 70% das profisses do planeta, como vendedor e motorista, poderiam ser substitudas pelos computadores. Mas calma: h carreiras, as mais criativas, dependentes da intuio e do senso artstico de humanos, nas quais as mquinas jamais vo nos superar. O site de VEJA elaborou um teste, baseado no estudo "Criatividade X robs", da Nesta  uma organizao inglesa sem fins lucrativos que apoia projetos de inovao , que calcula o risco de sua atividade profissional ser extinta pela IA (agora ou em um futuro prximo).

O ADVOGADO DAS STARTUPS
A trajetria de Felipe Matos, de 32 anos, confunde-se com a das startups brasileiras. Ele passou por quase todos os pontos da cadeia de inovao - empreendedor, investidor, gestor de aceleradoras de negcios - e acaba de assumir um novo papel:  frente do movimento Dnamo, tenta convencer os polticos em Braslia de que o pas precisa ser mais gil e menos burocrtico. H outras lutas. "Muita gente ainda entende que o objetivo da universidade no  falar com o mercado, mas formar gente. Esse ponto de vista est deixando o Brasil para trs", diz ao site de VEJA. 

A HISTORIA DA AIDS
Em 1981, o infectologista Artur Timerman, uma das maiores autoridades brasileiras em aids, ouviu falar pela primeira vez da doena. Na poca, a falta de conhecimento e o medo de contaminao faziam com que muitos mdicos se recusassem a atender pacientes soropositivos. Timerman foi na contramo. Houve um dia em que chegou a assinar onze atestados de bito. O drama de pacientes e a evoluo do tratamento so temas do livro recm-lanado Histrias da Aids. Ao site de VEJA, ele faz um alerta: "Os jovens de hoje, que no viveram o perodo de medo da doena, so o grande grupo de risco. Eles no se protegem".

ESTRAGOS DA CORRUPO
Em entrevista ao site de VEJA, o historiador Boris Fausto analisa os efeitos da grave crise poltica que assola o governo Dilma Rousseff, cada vez mais combalido diante dos desdobramentos da Operao Lava-Jato. Para ele, os estragos provocados pela corrupo so graves o suficiente para ofuscar os resultados das aes sociais do PT na histria do pas. E, sobre a probabilidade de Dilma deixar o poder, diz: "H muito mandato e muita acusao pela frente".


1#2 CARTA AO LEITOR  AS LIES VINDAS DA GRCIA
     O acordo que garantiu a permanncia da Grcia na zona do euro foi descrito como "brutal", "violento" e at como "um dos piores momentos da histria da Europa". Emoes  parte, sobram muitas e valiosas lies para quem, como ns, brasileiros, assiste a tudo de uma distncia cmoda  no tanto, porm, quando medida em vulnerabilidade s ondas de choque de uma eventual catstrofe financeira no continente europeu. 
     A primeira lio mostra que  imperioso para qualquer pas minimamente vivel ter canais abertos com a comunidade financeira mundial, no caso grego, via euro. Isso ficou evidente, pois, mesmo mediante condies draconianas de austeridade nos gastos, o governo esquerdista de Atenas preferiu se manter no clube a ter de enfrentar sozinho as prprias contradies. 
     A segunda lio  a demonstrao inequvoca de que as democracias se saem bem melhor quando associadas a economias de mercado. O que se viu no plebiscito grego foi uma pattica tentativa de separar o exerccio da democracia dos requisitos bsicos de funcionamento de uma economia moderna e interligada internacionalmente. Sabendo da inutilidade da consulta, mesmo assim o governo grego perguntou ao povo, em ltima instncia, se  queria anular as leis econmicas pelo voto. Certas coisas, entre elas a escassez, problema bsico da cincia econmica, no obedecem  vontade popular, mesmo quando emanadas de maiorias absolutas. 
     A terceira lio diz respeito s geraes de militantes que empunharam por dcadas cartazes de repdio ao Fundo Monetrio Internacional (FMI). Houve efuses de ufanismo quando o governo petista anunciou que o Brasil passara de devedor a credor do fundo. Pois coube ao FMI ser a reserva de bom-senso na mesa de negociao na crise grega. "Tenho saudade do FMI. Quando seus tcnicos vinham ao Brasil, era para nos ajudar a sair de crises", diz um senador com vasta experincia administrativa e conhecimento econmico. O FMI  apenas um dos tantos moinhos de vento contra os quais as esquerdas gastaram, tolamente, uma imensa energia. 


1#3 ENTREVISTA  JOS EUSTQUI ALVES  DEMOS AS COSTAS AO BNUS
"Demos as costas ao bnus"
Para o demgrafo do IBGE, restam poucos anos para o Brasil salvar alguma coisa da vantagem de ter uma populao ativa majoritria. E  pouco provvel que consigamos.
CECLIA RITTO

Pelo menos uma vez na histria, todos os pases passam por um perodo especialmente positivo na relao entre a populao economicamente ativa e o total de crianas e idosos.  o bnus demogrfico. Bem administrado, esse perodo se transforma em uma sucesso de dcadas que a nao atravessa em condies altamente favorveis para se desenvolver e garantir o futuro.  uma rara janela de oportunidades para dar educao, sade e qualidade de vida  maioria da populao. No Brasil, essa janela se abriu por volta de 1970 e se fechar em breve, nos anos 2030. Infelizmente, para ns, brasileiros, essa oportunidade demogrfica est quase perdida. O severo diagnstico foi feito por um dos maiores especialistas no assunto, o professor Jos Eustquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Cincias Estatsticas (Ence), do IBGE. Avalia o professor: "J vnhamos mal nas dcadas anteriores. Agora, com a economia em baixa,  quase certo que essa etapa final do bnus est perdida". 

Fala-se muito que o Brasil est perdendo seu melhor perodo do ponto de vista demogrfico. O que isso quer dizer? 
O Brasil conta hoje com 81% da populao em idade de trabalhar, situao em que qualquer pas tem tudo para dar um grande salto de desenvolvimento. Ocorre que, para chegar ao padro das economias avanadas, 70% desse contingente deveria estar ocupado. No entanto, s metade dele est. O desperdcio dessa vantagem populacional  o bnus demogrfico  vem de longe. Mas os recentes retrocessos na economia ocorrem em um momento crucial, porque no demora muito e o bnus comear a diminuir. O Brasil precisaria abrir 22,7 milhes de vagas para contabilizar positivamente o bom momento demogrfico. Em vez disso, 


as taxas de desemprego s fazem aumentar, sem perspectiva de melhora a curto prazo. 

O bnus demogrfico pode ser at abreviado? 
Pelas minhas projees, a no ser que haja uma correo de rumos na economia j, o que acho altamente improvvel,  exatamente o que vai acontecer. A janela de oportunidades que se abriu no Brasil na dcada de 70 vai se fechar por volta dos anos de 2030. Na prxima dcada, a populao em idade ativa crescer menos do que a que no est apta ao mercado de trabalho. Na seguinte, declinar em nmeros absolutos, e a a janela demogrfica se fecha.  preocupante. A queda da mo de obra em um quadro de estagnao da produtividade significa o fim do desenvolvimento. 

Como se chegou a esse ponto? 
Por falta de viso. O governo de Dilma Rousseff, por exemplo, incentivou tremendamente o consumo, em vez de optar por aumentar o investimento no pas. Idealizada pelo ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, essa matriz econmica gestada na poca de Luiz Incio Lula da Silva  uma das razes para a crise atual. Dilma no resolveu entraves que ajudariam o Brasil a avanar e atrair dinheiro, como fazer uma reforma tributria, investir em infraestrutura para reduzir custos de logstica e estimular a indstria de bens de capital com alta tecnologia. Agora, colhemos os maus resultados. 

Antes do PT, algum se preocupou em aproveitar o bnus? 
Pouqussimo. O avano foi o tempo todo emperrado pela tradicional ineficincia governamental e pela instabilidade poltica promovida pelo presidencialismo de coalizo. Nos ltimos dois anos do governo Sarney, a inflao estava em 84% ao ms, com desemprego em alta e economia desarticulada. Depois, na poca de Fernando Collor, optou-se pela pior soluo possvel para pr o pas nos trilhos: congelar a conta-corrente e sequestrar a poupana. O Plano  Real melhorou a situao,  verdade, mas tambm no fez milagre. Entre 2002 e 2008, um bom momento dentro e fora do pas, era a hora de catapultar o Brasil com investimentos certeiros. Mas isso no aconteceu, a comear pelas frustraes com o pr-sal. 

As expectativas, nesse caso, foram equivocadas? 
Na verdade, o pr-sal sempre teve um custo muito maior do que o alardeado pelo governo. Lula repetia que se tratava de um passaporte para o futuro porque reindustrializaria o pas, geraria recursos para a sade e a educao, daria aos trabalhadores emprego e preparo. S que a to falada lucratividade estava exagerada. O discurso no se concretizou e ainda acabou ofuscado pelos escndalos revelados pela Operao Lava-Jato, que paralisaram a Petrobras. Como se v, a corrupo, alm de afetar o ambiente de negcios e espantar investimentos, pode atrapalhar o bom aproveitamento do bnus demogrfico. 

H como reverter esse quadro? 
Acho muito difcil. Sem emprego e tambm sem boa educao, no h como um pas se beneficiar da parcela que poderia estar produzindo a toda para alar a economia a um novo patamar. Pesquisas mostram que 10 milhes de jovens se encontram fora do mercado de trabalho. Um desperdcio. Pior: nem estudando esto. Enquanto isso, a poro mais velha da populao vai aumentando. Em 2040, ela j ser maior que a de crianas. Ambos so financeiramente dependentes, mas a criana gasta menos que o idoso. 

O Brasil no se preparou para ser um pas velho? 
No. Veja o nosso sistema previdencirio. Em poucos lugares do mundo ele  to generoso. O trabalhador, em quase todos os pases, se aposenta com uma renda menor e no to cedo quanto aqui. Muitas vezes o perodo que um brasileiro trabalha  inferior quele em que ele desfruta sua aposentadoria. 

Como outros pases agiram para minimizar o peso do envelhecimento sobre a previdncia? 
Um bom mecanismo foi criar incentivos para as pessoas permanecerem na ativa, como o aumento do benefcio para quem trabalha por mais tempo. Embora o fator previdencirio no resolva o rombo no sistema brasileiro, que j  grande e vai aumentar muito mais, ele ajuda a reduzir o problema, justamente por prover um estmulo a mais para adiar a aposentadoria. No d para entender por que, agora que as contas esto estourando, o Congresso quer suprimir esse item. Esto passando ao largo das anlises demogrficas: em quarenta anos, o contingente de idosos vai triplicar, consumindo recursos que deveriam ir para investimentos. 

O senhor poderia citar alguns exemplos de quem fez bem a lio? 
O Japo tem histria e cultura inteiramente diferentes, mas  um bom exemplo de transformao de terra arrasada, logo aps a II Guerra, em uma nao competitiva e inovadora  base de investimentos contnuos em educao. A janela demogrfica ali se fechou, mas isso aconteceu quando o Japo j havia alcanado o status de pas rico, com alta qualidade de vida. Estagnou em patamar elevado. A Coreia do Sul  outro bom caso. Seu bnus comeou mais ou menos junto com o brasileiro, mas os coreanos, ao contrrio de ns, conseguiram levar s salas de ensino mdio 100% dos jovens, e 80% chegam  universidade, uma das maiores taxas do planeta. So campees de produtividade, outro fator importantssimo. Entre 2002 e 2012, o trabalhador americano produziu em mdia 4,4% a mais a cada ano, perodo em que o brasileiro avanou msero 0,6%. E menos do que obtiveram outros emergentes com os quais o Brasil concorre diretamente. 

A chave  investir na qualidade da educao? 
Esse  certamente um dos ingredientes inadiveis no Brasil. O bnus retira parte da presso por quantidade, j que o nmero de alunos cai, e abre-se espao para mirar na qualidade. Mas h outros aspectos em comum entre os pases que souberam se beneficiar do bnus demogrfico. Eles agiram de forma planejada, antecipando o fenmeno, e apostaram as fichas em mais de uma frente para avanar na produtividade. Uma foi o desenvolvimento de tecnologias, que permitem tirar mais do trabalho humano e agregar valor aos produtos; a outra foi o investimento em infraestrutura, crucial para sustentar qualquer processo de crescimento. O Brasil no est indo nessa direo. Vivemos uma desindustrializao precoce. 

E quais so as consequncias disso? 
Como no fez seu dever de casa para ingressar na competio com o mundo, o pas continuou dependente do agronegcio, que gera recursos, sim, mas no fecha a conta. E isso se reforou no governo Dilma. H uma comparao bastante emblemtica de como o Brasil no est se credenciando para a disputa global. Mesmo sendo um pas do tamanho da cidade do Rio de Janeiro, Singapura encabea 2% das exportaes mundiais. O Brasil patina em 1%. Por qu? Eles souberam elevar a produtividade e gerar riqueza. Em  lugar de pensarmos no longo prazo, seguimos atrs de solues mgicas. 

Houve um tempo em que o Brasil soube aproveitar o seu bnus demogrfico? 
A primeira dcada, entre 1970 e 1980, foi a melhor, por aliar o aumento de trabalhadores ao de produtividade, puxada pela educao, que at ento era restrita a muito poucos. Mas a vieram hiperinflao, alta de juros, a escalada no preo do petrleo, e a renda per capita retrocedeu pela primeira vez na era republicana. O nvel de emprego at cresceu dos anos 1980 aos 1990, mas eram vagas ruins, que no incentivavam os trabalhadores a progredir, e os salrios baixaram. Foi a que a produtividade estancou. Concluso: das cinco, seis dcadas de ouro que a demografia proporciona a qualquer nao, o Brasil aproveitou bem uma delas, passou em ritmo mediano pelas outras e, desde 2010, deixou de tirar vantagem. 

O emprego em baixa afeta algum grupo mais do que os outros? 
Afeta sobretudo as mulheres. A razo  estatstica. So as mulheres que vm fazendo o contingente no mercado de trabalho aumentar consistentemente nas ltimas dcadas. Entre 1950 e 2010, a presena masculina cresceu trs vezes, ao passo que a feminina subiu dezesseis. Elas foram a grande novidade demogrfica no grupo dos trabalhadores. Mas o nmero de mulheres estancou  medida que a qualidade dos postos caiu. Tambm a precria infraestrutura do pas, que faz uma viagem para o trabalho durar horas, espanta. Muitas que tm filhos preferem ganhar um Bolsa Famlia a enfrentar quadro to adverso. 

Enfim, a chance de o Brasil aproveitar o bnus demogrfico acabou de vez? 
No. Apesar de estar cada vez mais difcil, ainda h possibilidades. O que precisa ser feito nos prximos quinze anos? Primeiro, elevar a taxa de crescimento para algo entre 4% e 5% ao ano. Tambm  indispensvel incentivar mais pessoas a entrar no mercado de trabalho, sobretudo as mulheres  uma poltica de conciliao entre trabalho e famlia ajudaria muito. As taxas de investimento precisam se elevar, assim como a eficincia produtiva, que deve ser desatrelada de favorecimentos polticos. Infelizmente, no vejo atualmente nenhuma fora poltica capaz de tirar o Brasil do atoleiro. 

Que cenrio o senhor traa para o futuro? 
Os dados do IBGE e do FMI at permitiriam uma viso otimista. Nos dois ltimos sculos, a economia brasileira cresceu 912 vezes, a populao multiplicou-se por 47 e a renda per capita subiu vinte vezes. Se a curva da economia mantivesse o mesmo ritmo, o Brasil seria um pas rico em questo de dcadas. Mas no  o que indicam as projees. At 2020 o Brasil deve crescer 1,8% ao ano, bem menos que as outras economias emergentes, puxadas por taxas mdias de 5,1%, e o mundo como um todo, que avanar ao dobro do ritmo brasileiro. O Brasil est virando as costas para sua derradeira brecha demogrfica e, em consequncia, est entrando em um caminho sem volta. Ficar velho antes de ficar rico.


1#4 LYA LUFT  PTRIA MADRASTA
     No repetitivo e assustador noticirio brasileiro, desfile de tragdias, crimes, roubalheiras e fices, boa parte dedica-se  melanclica ou trgica situao da infncia e da juventude brasileira. 
     No falarei mais uma vez nas crianas sem escola, com escola em runas ou de dificlimo acesso, sem livro, sem caderno, sem giz, sem coisa nenhuma alm de pobreza e at fome (porque a alimentao no chega, o dinheiro no veio, ou foi desviado). Mas alguns pontos sobre a educao nesta ptria, que se revela cruel madrasta, hoje me afligem particularmente, e me interessam sempre. 
     H alguns dias recebi atravs de professores universitrios, dentistas brilhantes, a notcia logo discretamente divulgada na imprensa de que nos primeiros dias deste ms de julho chegou s universidades a informao catastrfica de que, sem consulta nem anncio prvio, o governo federal cortou 75% da verba do Programa de Apoio   Ps-Graduao (Proap)  verba essa usada para o pagamento de dirias para alunos participarem de cursos e congressos, professores atuarem em bancas de doutorado e mestrado, o custeio de cursos, consertos e manuteno de equipamentos, e outros fatores essenciais. Em janeiro, o mesmo governo j tinha cortado um tero da verba do MEC destinada  Capes, que fornece bolsas de estudo aqui e no exterior e financia atividades diversas, cientficas, de centros de pesquisa, escolas tcnicas e outras instituies de ensino. 
     "A ps-graduao do Brasil faliu", dizem professores e pesquisadores. A pesquisa cientfica e a formao de novos cientistas esto sendo liquidadas. "Estamos de luto", lamentam eles, e tentam desesperadamente manter o Brasil fora do dramtico atraso em relao ao resto do mundo, como estamos em tantas instncias do pas. "Estamos de luto, mas no jogamos a toalha", afirmam ainda os gravemente atingidos por mais esse corte feito pelo governo federal. Ho de lutar, reclamar, denunciar, apelar: tenho pouca esperana de que consigam alguma coisa, uma vez que a toda hora se comprova que o interesse pela educao  ralo e raso na terra que se mentia "educadora". 
     Voltemos aos jovens em geral: embora cifras oficiais nunca sejam confiveis, sabemos que o nmero de adolescentes fora da escola  vergonhoso; o de jovens desempregados  pior ainda. Muitos deles, sem preparo para nenhum trabalho regular, so fceis vtimas dos traficantes, realizam pequenos roubos, depois crimes mais graves, abandonados por parte das autoridades responsveis. A no ser que se efetive uma lei mais severa para crimes hediondos, no temem punio. Quase 40% desses adolescentes tm ficha criminal; 50% no estudam, vagam pelas ruas drogados, a famlia destruda, sem que a dita ptria-me lhes oferea apoio e horizonte; quase 40% acabam assassinados: vergonha mais uma vez. Se a juventude  o futuro, que pas estamos nos tornando? 
     Subindo na escala do ensino, agora se permite a criao de dezenas de faculdades de medicina pelo interior. Sabem por acaso os geniais autores dessa ideia que um curso de medicina precisa de um hospital-escola onde os alunos praticam o que aprendem? Sabem dos custos de uma tal faculdade, com laboratrios, equipamentos e professores capacitados? No seria mais sensato  alguns municpios inteligentes fazem isso  oferecer bolsas de estudo para que jovens do interior estudem medicina nas grandes cidades com a condio de voltar aos lugares de origem para praticar o que aprenderam? E por que, em vez de criar faculdades de medicina improvveis, no se aplicam esses recursos para equipar decentemente centenas de hospitais onde no existem leitos, aparelhos e instrumentos, pessoal habilitado, higiene, remdios bsicos, atendimento humano? 
     A insensatez instala-se em todos os nveis e lugares deste pas, mergulhado num nevoeiro espesso de dvidas e desesperana. Qual o limite dessa situao que o Brasil no merece  mas de alguma forma escolheu nas ltimas eleies? Tenho medo de saber a resposta.
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR 
GOVERNO DILMA
No me recordo de momento to crtico na histria recente do Brasil. A reportagem "Cada vez mais perto" (15 de julho) nos faz um alerta sobre a situao perigosa que enfrentamos no pas: vivenciamos uma crise econmica aliada a uma crise poltica. 
DELANE BARROS 
Macei (AL), via tablet 

A dita "insustentvel leveza" que intitulou a capa da edio 2434 de VEJA se volatiliza num peso morto que consegue afundar nosso orgulho de ser brasileiro. 
ADEMIR RODRIGUES DE OLIVEIRA JNIOR 
Nanuque, MG 

A capa da ltima edio de VEJA me encantou, e resolvi mostr-la a trs pessoas para sentir o impacto que ela causaria. A primeira leu a manchete e se debruou sobre a foto: "Como ela est magra e to serena. Pelo jeito, botaram-na dentro de um avio e a mandaram para bem longe". A segunda s leu o ttulo e me explicou: "Vai ser provado que ela no tem culpa.  uma pessoa leve (sic) e paira acima do bem e do mal. Parece que est subindo aos cus...". A terceira leu atentamente, perguntou se eu conhecia Milan Kundera e explicou: "Muita ironia numa frase s, e ironia no  coisa para todo mundo". 
GLORIA CUNHA 
Santos, SP 

O vcuo criado pelo isolamento da presidente Dilma torna o Brasil um pas de tribos brigando por pedaos de terra abandonada. 
LEANDRO HENRIQUE PEREIRA DE SOUZA 
Monte Azul Paulista, SP  

IMPEACHMENT 
A maneira como se d a instituio do poder na sociedade brasileira atualmente deve ser tratada com muito zelo. A democracia  uma das maiores conquistas da nossa histria, tendo eu de corroborar a sensatez de Fernando Henrique Cardoso ao analisar a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff ("Cuidado com o que se pede", 15 de julho). A temporalidade dos mandatos est presente na organizao do Estado brasileiro, sendo, por meio das urnas, a melhor forma de destituirmos um chefe de Estado. Que os cidados responsveis pela reconduo de Dilma Rousseff  Presidncia da Repblica  no me incluo nesse rol  sejam mais criteriosos e menos ingnuos nas prximas eleies. 
MERION CARVALHO PINHEIRO 
Braslia, DF 

H um cardpio de motivos para derrubar a presidente Dilma. Nos anos 90, a sada de Fernando Collor da Presidncia da Repblica possibilitou, entre outras coisas, o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei das Eleies, que tem sido fundamental para descobrirmos os desmandos petistas. Concordo que "cogitar o impeachment por causa de um prejuzo, de uma entrevista arrogante ou da alta da inflao  perder de vista a gravidade desse recurso constitucional". Mas entendo que seriam motivos suficientes para trocar o primeiro-ministro.  chegada a hora de discutir a adoo do parlamentarismo com seriedade. Essa sim seria uma maneira de lidar com maus governantes sem risco institucional. 
ALIM PEDRO DE CASTRO GONALVES 
Campinas, SP 

CARTA AO LEITOR 
Nada mais assertivo que a traduo livre do poema do ingls Rudyard Kipling dedicada pela revista VEJA a uma presidente de ego exacerbado, que vive nas masmorras de um passado no mais existente, que se vangloria de uma natureza de fortificao prpria imaginria e que se autodenomina deusa de perfeio, que tudo sabe e determina: Dilma Rousseff. Admirvel e sensacional o poema na Carta ao Leitor "Se..." (15 de julho). Parabns! 
ANGELA MACHADO 
Vinhedo (SP), via tablet 

VEJA se superou. Aos crticos da revista, o texto "Se..." foi uma lio de f, otimismo e sabedoria, mostrando a todos que, para o Brasil, mesmo no governo Dilma, h solues. 
FLORENCE LEBRAM VON SOHSTEN 
Salvador, BA 

Parabenizo o inspirado intelectual e maravilhoso poeta que conseguiu, de modo inigualvel, no s adequar ao contexto atual o poema de Kipling como tambm manter-se fiel  sua forma potica, e ainda valer-se de uma linguagem adequadssima e de alto nvel. No consigo parar de l-lo! 
GISELA KLADT SPOLIDORO 
Rio de Janeiro, RJ 

Mesmo sendo inspiradora a mensagem do ingls Rudyard Kipling, h muitos "se" a ser superados pela presidente Dilma Rousseff numa conjuntura poltica e econmica complicada pela enxurrada de corrupo sob investigao da Polcia Federal. A misso  quase impossvel. 
EUSTQUIO LIBRIO 
Manaus (AM), via tablet 

PAUL DOLAN 
Adorei a entrevista com o economista ingls Paul Dolan ("A equao da felicidade", 15 de julho). Tambm sou feliz e consigo unir prazer com propsitos ao longo do tempo cultivando as relaes sociais. Consigo ser feliz centralizando tempo e energia. Perdoo com facilidade e tento ajudar os outros. Sou realmente feliz. 
BYA BARROS 
Por e-mail 

A entrevista com Paul Dolan me deixou mais feliz ainda, pois sigo as normas citadas para buscar a felicidade. Ela depende de nossas aes e do desejo de estarmos bem em locais que nos fazem bem. 
EUGNIO ALVARES MACEDO 
Abaete, MG 

A entrevista com o economista Paul Dolan serve como picareta na demolio do muro da hipocrisia. Por mais que a felicidade seja "um estado de esprito interior", as condies exteriores contam muito, sim. Boa situao financeira  no prprio bolso e na sociedade   uma das principais variveis na equao da tal felicidade. 
ROBERTO SZABUNIA 
Joinville, SC 

JOGOS PAN-AMERICANOS 
Possibilitar a alguns atletas de modalidades menos badaladas uma experincia internacional de peso  um legado. Formar um competidor de nvel olmpico demanda muito mais que um ciclo. H exemplos na reportagem "Para que serve um Pan?" (15 de julho): Mark Spitz, Carl Lewis etc. Os Jogos Pan-Americanos contribuem para fomentar uma cultura dos valores esportivos (olmpicos) que, em paralelo  educao geral, ajudam a educar a juventude. 
AFONSO CELSO BRANDO NINA 
Por e-mail 

Esses Jogos so uma vitrine para novas promessas no esporte. Mesmo no indo muito longe, os competidores no deixam de ser referncia e inspirao para futuros atletas. 
VAGNER MARSOLETO 
Cambira, PR 

Os Jogos Pan-Americanos servem para admirar o nado sincronizado, exclusivamente o feminino. A piscina transforma-se em morada da beleza. 
FAUSTO FERRAZ FILHO 
So Paulo, SP 

OLIMPADA DO RIO 
O saldo no vermelho e a Olimpada do Rio de Janeiro batendo  nossa porta somente aumentam a preocupao do povo brasileiro. Novas medidas esto sendo tomadas para viabilizar o evento em 2016 ("A tocha da austeridade", 15 de julho). Muitos se aborrecem com isso. Os polticos sero capazes de trocar seu champanhe e caviar por gua de coco e mandioca para amenizar a "continha" do ano que vem? 
GABRIEL ZARPO FERREIRA 
Curitiba (PR), via smartphone 

RENATO RUSSO 
Ao ler a reportagem "Relatos selvagens" (15 de julho), sobre o cantor Renato Russo, eu me emocionei bastante com a reproduo do trecho do livro e tambm do manuscrito da cano de que tanto gosto. Nos anos 80, era muitssimo f do Renato. Claro que sabamos da dependncia qumica dele. Mas a gente s o amava mesmo...  estranho constatar hoje a loucura na qual ele vivia, naquele tempo em que eu era to jovem e ele soava quase imortal (bem clich juvenil). Sua morte participou fortemente do meu amadurecimento, muito triste por sinal. Ele deixou um espao que jamais foi ocupado. 
VANDA GRACILIANO 
So Paulo (SP), via tablet 

O jornalista Srgio Martins relembra em sua reportagem quanto vale a pena manter vivas a memria e a alma de Renato Russo. Ler anotaes do msico no livro S por Hoje e para Sempre  Dirio do Recomeo reacende a paixo brasileira por msica de qualidade e contedo. 
CSSIA LAURA GHELLER BERTOLDO 
Curitiba (PR), via smartphone 

AMORA MAUTNER 
A excelente reportagem "A fruta da estao" (15 de julho), sobre a diretora de TV Amora Mautner, mostra uma mulher inovadora, criativa e, usando sua prpria definio, "pilhada". Acredito que muito do talento e da genialidade da diretora tenha sido herdado dos seus pais, assim como sua escolha pelo meio artstico. Como em toda educao, sempre vamos observar erros e acertos, pois no existe uma frmula pronta que d resultados. 
TUCA RIBEIRO 
Florianpolis, SC 

Correo: o jato comprado por Neymar no pertencia  Arezzo, mas a Alexandre Birman, dono da Arezzo ("Nos ares", Radar, 15 de julho).

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGLOSFERA
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@abril.com.br

INOVAO 
JLIO VASCONCELLOS 
Vida de luxo 
Uma srie de startups oferece servios at ento exclusivos a milionrios por uma frao do custo original. Reservas de ltima hora em restaurantes da moda, fins de semana em lugares paradisacos, roupas de alta-costura e muitos outros luxos agora esto ao alcance de milhes de novos consumidores, www.veja.com/inovaco 

VEJA MERCADOS 
GERALDO SAMOR 
NETFLIX 
David Einhorn est azedo com a exuberncia irracional das aes da Netflix. O gestor da Greenlight Capital  famoso por apostar contra empresas que considera caras  criticou a ltima temporada de House of Cards. "Foi feita para concorrer com Ambien", disse ele, referindo-se a um remdio que ajuda a dormir. Em carta a investidores, afirmou ainda que o mercado est sendo complacente em relao ao valor da empresa. www.veja.com/vejamercados 

DE NOVA YORK 
CAIO BLINDER 
IR 
O acordo nuclear costurado em Viena  uma grande vitria para o Ir. O pas deixa de ser pria na comunidade ocidental com a suspenso gradativa das sanes em troca de limites nas suas atividades nucleares durante dez anos. O nus caber  comunidade internacional, que ter de ser eficaz na inspeo das instalaes nucleares do Ir. www.veja.com/denovayork

QUANTO DRAMA!
ALM DO TEMPO
Novelas de poca so quase sempre encantadoras, com suas produes bem cuidadas e figurinos deslumbrantes, e Alm do Tempo segue a tradio   linda. Amores interrompidos, mgoas familiares e intrigas sero os condutores da primeira fase da trama, alm de combustvel para boas atuaes  Irene Ravache j apareceu divina e mordaz como convm a uma megera do horrio das 6, e  certo que far boa dupla com a vil jovem encarnada por Paolla Oliveira. Talvez pela proximidade da poca, tenha sido irresistvel o uso de Downton Abbey, que se passa no incio do sculo XX, como referncia. Quem acompanha a srie britnica deve ter reparado que a Condessa Vitria Castellini tem pontos em comum bvios com a Condessa Violet Crawley (Maggie Smith) e que o casaro da famlia nobre na fictcia Campobello, cidade produtora de uva no sul do pas, funciona de maneira bem semelhante ao palacete de Yorkshire, com suas dezenas de empregados atarefadssimos, www.veja.com/quantodrama

VOC & SUA CARREIRA
AUTOCOBRANA
Sofia Esteves, fundadora do grupo DMRH e Cia de Talentos, fala sobre o perigo da autocobrana exagerada, um sentimento que pode prejudicar jovens em incio de carreira. "A preocupao de ter conhecimento sobre tudo, fazer vrios cursos e diversas atividades ao mesmo tempo e no ter foco em nada  um erro", avalia.  preciso cuidado para no cair nessa armadilha. www.veja.com/carreira

CALDO DE CULTURA
SONS DA BAHIA
Ex-vocalista da banda Eva, Saulo Fernandes fala sobre seu novo disco-solo, Baiano, um atestado da fora da msica baiana com canes que vo desde o pr-ax at outras com percusso mais intensa e aquelas com forte conexo Bahia-frica. "Essa mistura, junto com poesia, bons msicos e bons compositores,  o novo horizonte musical da Bahia", diz Fernandes em entrevista ao programa Caldo de Cultura. " como eu vejo este cenrio atual." www.veja.com/caldodecultura
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2# PANORAMA 22.7.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA   A ULBER-CAMPANHA!
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM DCIO CAMPOS  ELE TORNA O ESPETCULO MAIS BONITO
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA   A ULBER-CAMPANHA!
Nas eleies americanas, o mantra : "Diz-me como andas e direi quem s".

 Jeb Bush  o poltico republicano com mais chances de vitria em um embate com a provvel candidata democrata Hillary Clinton nas eleies presidenciais americanas do ano que vem. Contra suas pretenses est o parentesco com o irmo George W. Bush, que empurrou os Estados Unidos para duas guerras. Ainda que "Jeb" seja um acrnimo para John Ellis Bush, o sobrenome maldito nunca aparece no material da campanha. Se os teimosos insistem em posicion-lo  sombra do irmo, Jeb emana brilho prprio.  casado com uma mexicana, Columba, que conheceu enquanto ajudava na construo de uma escola em uma regio pobre do Mxico. Ele aperfeioou o espanhol por causa dela, converteu-se ao catolicismo e vai todo domingo  missa com a famlia. Quando governou o Estado da Flrida, cortou custos desnecessrios e acelerou a economia. Na primeira divulgao de dados de financiamento de campanha, feita na quarta 15, Jeb largou  frente de todos os pr-candidatos. Ainda assim, prefere economizar no transporte. No seu relatrio de despesas h registros de setenta pagamentos de viagens feitas pelo Uber, um aplicativo de contratao de motoristas e caronas pagas. Com toques na tela do celular, o programa, criado em So Francisco, onde essa foto foi feita, tornou-se sinnimo de servio bom e barato. O motorista precisa ser aprovado pelo Uber, mas permanece autnomo. Os pr-candidatos republicanos Rand Paul e Ted Cruz, que defendem a inovao e menor regulao estatal, usam o aplicativo intensamente. Hillary, democrata, criticou o servio. Para ela, o modelo levanta dvidas sobre as condies de trabalho no futuro e reduz os salrios da classe mdia. Ser que j existem motivos suficientes para gostar desse Bush? 
DUDA TEIXEIRA


2#2 DATAS
MORRERAM
Alcides Edgardo Ghiggia, ex-jogador de futebol do Uruguai, autor do gol da vitria de seu pas sobre o Brasil, por 2 a 1, em pleno Maracan, na partida final da Copa do Mundo, realizada no dia 16 de julho de 1950. A seleo brasileira perderia outra deciso de Mundial  em 1998, em Paris, contra a Frana de Zidane, que fez 3 a 0 num time afogado pela convulso que acometeu seu craque maior, Ronaldo. Tambm seria desintegrada de novo dentro de casa, caindo diante da Alemanha de Mller, Klose & Cia., por 7 a 1, na semifinal da Copa de 2014, no Mineiro. Apesar disso, nenhuma outra derrota soaria to definitiva para o Brasil como a que lhe imps o vigoroso, veloz e hbil ponta-direita do Uruguai de 1950. "Apenas trs pessoas calaram o Maracan: o papa (Joo Paulo II), Frank Sinatra e eu", dizia Ghiggia. Quando acusavam o goleiro Barbosa de ter sido o responsvel pelo dilacerante silncio que se ouviu no Maracan aos 34 minutos do segundo tempo daquele jogo em que o Brasil precisava apenas empatar para arrebatar a Jules Rimet  tendo sado na frente , disparava: "A culpa foi minha". Admirado pelos talentos a quem fez chorar diante da prpria torcida, Ghiggia se tornou amigo de vrios jogadores da seleo vice-campe. Sobreviveu a todos eles, como tambm aos companheiros do grande trunfo de sua carreira, que incluiu glrias no Pearol de Montevidu, sua cidade natal, e no Roma e no Milan da Itlia. Como legtimo protagonista da campanha do segundo ttulo mundial do Uruguai  marcou gols em todas as partidas, feito s igualado por Jairzinho, em 1970 , coube-lhe encerrar essa histria, o que ocorreu na data exata em que ela completava o 65 aniversrio. Dia 16, aos 88 anos, de parada cardaca, em Ls Piedras. 

Satoru Iwata, que desde 2013 ocupava o posto de CEO da Nintendo, fabricante japonesa de videogames. Foi o primeiro executivo fora da famlia Yamauchi, que fundou a companhia, em 1889, a assumir o comando geral da empresa. Nascido em Sapporo, no Japo, comeou sua trajetria profissional na dcada de 80 numa subsidiria da Nintendo, o HAL Laboratory. Em 2000, passou a trabalhar na prpria Nintendo como diretor. Dois anos mais tarde assumiria a presidncia e, em 2013, o cargo de presidente executivo. Iwata apostava suas fichas em aparelhos fceis de ser manuseados e foi um dos principais idealizadores do Nintendo DS e do Wii  dois dos mais recentes sucessos da fabricante sediada em Kyoto. Por outro lado, demorou a investir em jogos para dispositivos mveis, por acreditar que eles poderiam prejudicar o principal negcio da companhia, baseado na venda de consoles. Dia 11, aos 55 anos, em decorrncia de um cncer no duto biliar, em Kyoto. 

Joan Sebastian, cantor e compositor mexicano que vendeu mais de 12 milhes de discos e ganhou, no total, onze prmios Grammy. Y Ias Mariposas, Alma de Nia, Tatuajes e Secreto de Amor so algumas das canes mais famosas de sua carreira. Jos Manuel Figueroa  seu nome de batismo  nasceu no povoado de Juliantla. Aos 11 anos, escreveu a primeira composio. Aos 14, ingressou no seminrio. Desistiu de ser padre aos 17 anos, quando resolveu se lanar como msico  e engatou um namoro. O cantor costumava se apresentar montado a cavalo, hbito que os mdicos o exortaram a abandonar em 1999, quando ele foi diagnosticado com cncer nos ossos, doena que o mataria. Dia 13, aos 64 anos, em Juliantla. 


2#3 CONVERSA COM DCIO CAMPOS  ELE TORNA O ESPETCULO MAIS BONITO
O melhor comentarista brasileiro de tnis, ex-jogador profissional, explica como seu estilo irreverente e brincalho na TV consegue levar o espectador a apreciar ainda mais as partidas.

Voc  um bom comentarista? 
Aprendi com o filho do Armando Nogueira, o Manduca, que, cada vez que entro no ar, devo imaginar estar jantando na casa de algum, com a famlia toda. Ento no posso emitir opinio sobre credos ou poltica nem falar palavro. 

De onde vem sua descontrao? 
Sou de uma famlia irreverente. Minha me conta piada pesada at hoje, aos 80 anos. Na minha casa nunca houve espao para ser triste. 

Como surgem as metforas e os apelidos dados aos jogadores? 
Esse  um artifcio  para chegar mais perto de todos os pblicos. Nos Estados Unidos os times tm nome e perfil de animais. Associo o Roger Federer ao leo da montanha, animal com destreza para saltar, mudar de direo, veloz; o Novak Djokovic  como o lobo; o Rafael Nadal  um touro, lutador. 

O Guga era que animal? 
O Guga no precisava de apelido. Tinha personalidade prpria, como o Mickey e o Pato Donald. 

Por que o tnis no vingou no Brasil na era Guga? 
Porque no se faz jogador de tnis. No  como pizza. A Inglaterra investe 250 milhes de libras por ano em tnis,  e no adianta. E o Brasil tem uma caracterstica que no combina com tnis: o povo  muito pacato. Tnis  para espanhol, contestador, briguento. Argentino  mais briguento tambm. 

Qual  a bronca do Nadal com o juiz brasileiro Carlos Bernardes? 
O Nadal reclama demais. Ele tem transtorno obsessivo em excesso e precisa se cuidar, ir ao psiclogo. Reclama sempre quando algo no prevalece.  um excelente jogador, mas um grande choro. 

Voc ganhou muito dinheiro jogando tnis? 
Eu jogava s para no ter de ir ao escritrio trabalhar. 

Qual era seu melhor golpe? 
Slice de esquerda. Com ele pagaria as prestaes de um apartamento. Mas com a direita no pagaria nem o condomnio. 


2#4 NMEROS
3  o nmero mximo de parceiros a quem algum diz "eu te amo" ao longo da vida, segundo pesquisa do YouGov nos Estados Unidos. 
1 em cada quatro indivduos apenas proferiu essa frase para quatro ou mais pessoas, de acordo com o levantamento. 
18 a 29 anos  a faixa etria com o maior percentual de pessoas que nunca disseram "eu te amo": 23%, contra a mdia geral de 9%. 
6 tipos de categoria foram usados para dividir os entrevistados: gnero, raa, preferncia partidria, renda, regio onde vive e idade. S a idade interferiu significativamente nos resultados - de resto, ricos ou pobres, homens ou mulheres, brancos ou negros, todos tendem a dizer "eu te amo" a at trs pessoas na vida. 

2#5 SOBEDESCE
SOBE
Obama - O presidente americano, at recentemente candidato a pato manco, saiu-se vitorioso no acordo com o Ir e, na segunda metade do segundo mandato, ainda vai cravar uma embaixada em Havana. 
Guerra comercial -  A Unio Europeia acusou o Brasil de protecionismo em um documento de 3000 pginas enviado  Organizao Mundial do Comrcio (OMC). 
Hip-hop - O gnero musical  o mais ouvido no mundo, segundo o Spotify, que analisou a execuo de 20 bilhes de faixas em quase 1000 cidades.

DESCE
Angela Merkel - A chanceler, cuja fama de m j havia crescido com a crise da Grcia, fez uma menina palestina chorar num debate ao dizer-lhe que alguns refugiados na Alemanha teriam de "voltar para casa". 
Campo de Sergipe -  A maior reserva de petrleo descoberta no Brasil desde o pr-sal ter sua explorao adiada para a prxima dcada por causa dos problemas de caixa da Petrobras. 
Aids - As infeces caram 35% desde 2000 e, segundo a ONU, podem baixar em at 90% em 2020, o que levaria ao fim da epidemia em 2030. 


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 LAVA-JATO
O PRXIMO 
O mssil que a Procuradoria-Geral da Repblica tem em mos para atingir em breve Renan Calheiros explodir tambm no colo de Srgio Machado, ex-presidente da Transpetro. 

DE BANDEJA 
A definio usada na cpula da Procuradoria-Geral da Repblica para a delao premiada do lobista Jlio Camargo em que atira no presidente da Cmara  forte. Diz-se l que Camargo "entregou a cabea de Cunha sangrando numa bandeja". 

E AINDA TEM UM ROLLS-ROYCE... 
Fernando Collor teve sorte. Os agentes da Polcia Federal apreenderam na Casa da Dinda os j clebres Ferrari, Lamborghini e Porsche, mas no tiveram a curiosidade de dar uma passada em sua casa paulistana, no Jardim Europa. Se fossem at l, poderiam dar de cara com o smbolo mximo dos automveis de luxo, o Rolls-Royce 2006 a ao lado - um fausto para poucos: a montadora britnica fabrica apenas doze desses por ano. O carro, assim como a Ferrari e o Lamborghini, est em nome da gua Branca Participaes, empresa na qual ele e a mulher, Caroline Serejo, so scios. O Rolls-Royce modelo Phantom  essa beleza que se v, mas no  l muito econmico: faz 6 quilmetros com 1 litro de gasolina - mas quem h de se importar com miudezas, no  mesmo? Ainda assim, Collor deve 33.000 reais de IPVA. A propsito, esse no  o nico carro que o senador possui em So Paulo.  

 GOVERNO 
TEMPOS DE REVOLTA 
Os responsveis pela segurana de Dilma Rousseff tm deixado de prontido, escondido atrs do Palcio do Planalto, preparado para entrar em ao, um desses veculos da tropa de choque do Exrcito, equipado com armas de combate a distrbios civis, como canhes de gua e outros instrumentos. Em tempos de revolta de Eduardo Cunha, pode ser que se faa necessrio. 

CORTOU O BARATO 
Michel Temer deu um corte em Eduardo Cunha na quinta-feira passada, ao ouvir  do presidente da Cmara que a prxima vtima do tal compl de Rodrigo Janot e do Planalto seria o vice. Rebateu Temer: "Impossvel, Eduardo, porque eu nem sequer conheo qualquer um desses delatores que esto te atacando". 

PALAVRAS AO VENTO 
Com muito oba-oba, Dilma lanou um tal Programa de Investimento em Logstica em 9 de junho e discursou, retumbante: "Estamos aqui no s para anunciar grandes nmeros e projetos ambiciosos, mas, especialmente, para renovar nosso compromisso com o desenvolvimento de nosso pas". Beleza. Na semana passada, porm, o ministro Eliseu Padilha, em reunio com ministros do TCU, admitiu: "H algumas previses otimistas de fazer algum leilo at dezembro. Na minha rea de aeroportos, sei que  impossvel". 

 PSDB 
 FRENTE, NO 
Sem tomar a frente do movimento, o PSDB definiu que ter uma participao mais ativa na mobilizao do protesto contra o governo marcado para o dia 16 de agosto do que teve nas manifestaes de rua de maro e abril. Vai se reunir com os organizadores do ato, dar apoio, mas no assumir o comando.  aquela histria: nem to atrs que parea desinteresse nem to  frente que parea uma manifestao do PSDB. A propsito, Acio Neves s definir sua presena no ato s vsperas do dia 16. 

 PROPAGANDA 
COMPRA E VENDA 
Ao mesmo tempo que conversam sobre a venda do controle do grupo ABC para Omnicom ou WPP, Nizan Guanaes e Guga Valente conduzem a negociao para a compra de 100% da Loducca, agncia responsvel por 30% do faturamento da holding.  

 PETROBRAS 
CONSELHOS DE GRAA 
Graa Foster saiu da Petrobras, mas a Petrobras ainda no saiu dela. Alm de ligar insistentemente para vrios diretores e para o seu sucessor, Aldemir Bendine, Graa mandou recentemente uma longa carta ao presidente da Petrobras dando conselhos de gesto. 

TEMPO QUENTE 
O relacionamento entre Petrobras e ANP passou de ruim a pssimo. 

 ECONOMIA 
NA CONTRAMO 
As Lojas Americanas no alteraram seu planejamento: fecham o ano com 170 novas unidades abertas. 

25 BILHES DE DLARES 
Na justificativa do projeto de repatriao de divisas enviadas ilegalmente ao exterior, os parlamentares estimam que o que poderia retornar ao Brasil seria algo entre 100 bilhes e 150 bilhes de dlares. Joaquim Levy, entretanto, em conversas com senadores para convenc-los a apoiar a repatriao, tem calculado que 25 bilhes de dlares voltam. Muito menos. Ainda assim, dinheiro  bea. 

GUERRA CONTINUA 
A guerra silenciosa entre Ablio Diniz e o grupo Casino no se restringe  disputa do esplio de Valentim Diniz para reaver a primeira loja do Po de Acar. Ablio pediu tambm que a sua holding, a Pennsula, questione os contratos de cada uma de suas 62 lojas alugadas ao Grupo Po de Acar  o que j foi feito. 

QUANTO VALE? 
O HSBC Brasil est preocupado com as consequncias da crise poltica sobre a venda do banco. A cpula avalia que o valor do negcio com crise, mas com Dilma Rousseff no poder,  um; j com Dilma ejetada do Planalto e o pas numa crise que ningum sabe onde vai dar,  outro, evidentemente. 

 BRASIL 
MUDANA DE HBITOS 
A crise hdrica  ou o temor dela  j faz com que 72% dos brasileiros diminuam o tempo no banho. Pelo menos esse era o quadro em abril, quando a Kantar Worldpanel realizou uma pesquisa nacional sobre a escassez de gua. O estudo constatou tambm que 65% dos brasileiros se diziam "muito preocupados" com a situao. 

 CULTURA 
LADO A LADO 
Em meio  crise poltica, que s tende a esquentar em agosto, Lula e Dilma Rousseff estaro lado a lado de FHC ouvindo Mendelssohn, Lizst e Beethoven num concerto marcado para o dia 15, em So Paulo, para lembrar os quarenta anos do assassinato do jornalista Vladmir Herzog. Quem est organizando a parte musical da noite  o maestro e pianista Joo Carlos Martins. 


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

Agem como os ditadores que so. Que se preparem, porque vamos atuar como a maioria que somos. - MARA CORINA MACHADO, ex-deputada venezuelana, opositora do regime chavista, reagindo contra a suspenso de seus direitos polticos pela Controladoria-Geral da Repblica 

Temos o melhor jogador do mundo, que (...) vem para a seleo e no toca na bola.  argentino ou sueco? - DIEGO ARMANDO MARADONA, ex-craque da Argentina, referindo-se, no dirio portenho OL, a Lionel Messi, o atual camisa 10 do time, que joga no Barcelona 

Sabe o que o pessoal diz no interior? (...) 'Olha, tudo isso que est acontecendo a gente at entende; que haja corrupo, ns j estamos acostumados. O problema  impedir a volta do Lula em 2018.' - RUI FALCO, presidente nacional do PT, defendendo a candidatura do ex-presidente da Repblica  sucesso de Dilma Rousseff, em discurso no ato pela democracia, realizado em So Paulo 

O poder, para se manter, precisa sempre de mais poder. Ou ele vai se acumulando cada vez mais e se torna ditatorial, ou se alia a outros para ser sempre poderoso. Acho que o PT entrou nesse vcio de poder. - LEONARDO BOFF, telogo, em encontro no Instituto Lula 

A porta da minha casa est aberta. Vo a hora que quiserem. Eu acordo s 6 horas. Que no cheguem antes, para no me acordar. - EDUARDO CUNHA, deputado federal (PMDB-RJ), presidente da Cmara, ironizando a ao de busca e apreenso da Polcia Federal na residncia de polticos no mbito da Operao Lava-Jato 

 egosmo achar que todas as crticas so para voc. (...) Vamos ver o que  realmente sapo, em vez de ficar estufada de sapos imaginrios. - PAOLLA OLIVEIRA, atriz, na Revista da TV, de O Globo 

Aqui  uma competio de culinria, e no de beleza. - PAOLA CAROSELLA, jurada do programa MasterChef (Band), dirigindo-se a uma participante, cujo cabelo considerou que deveria estar preso 

Uma das principais razes de eu me conectar menos com novos artistas  que a msica perdeu sua grandeza. - LARS ULRICH, baterista dinamarqus e um dos fundadores da banda americana Metallica, falando  BBC 

Toda vez que o Estado interferiu na vida cultural, definindo o que  arte, no Brasil ou em outros pases, foi um desastre." - JUCA FERREIRA, ministro da Cultura, em O Globo 

Os pases endividados deixaram muito claro desde o incio que eram nossos piores inimigos. - YANIS VAROUFAKIS, ex-ministro das Finanas da Grcia, no jornal espanhol El Pas 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto da ideia de que nenhum processo de automao pode substituir a criatividade humana 
O homem deve ser inventado a cada dia. - JEAN-PAUL SARTRE, filsofo e escritor francs (1905-1980).
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3# BRASIL 22.7.15

     3#1 LUXO COM NOSSO DINHEIRO
     3#2 ESCALO SUPERIOR
     3#3 O FIO DA MEADA ASSUSTA
     3#4 EM TRS ANOS, NAS RUAS

3#1 LUXO COM NOSSO DINHEIRO
As fraudes na Petrobras financiaram campanhas eleitorais, subornos e a mordomia de polticos desonestos em um processo que fez da estatal o bolso profundo da corrupo.
RODRIGO RANGEL E ROBSON BONIN

     Nas projees mais otimistas, calcula-se que corruptos e corruptores envolvidos no escndalo da Petrobras tenham desviado algo perto de 19 bilhes de reais dos cofres da empresa. A estatal era o paraso, o nirvana para gente desonesta, incluindo os empreiteiros, os servidores pblicos e os polticos j identificados como parceiros da partilha do dinheiro roubado. Na semana passada, o lobista Jlio Camargo, um dos delatores do caso, tentou explicar ao juiz Srgio Moro a essncia do petrolo. Na viso dele, a corrupo na Petrobras poderia ser ilustrada pela figura do fruto proibido. Os contratos eram como mas que os empreiteiros ansiavam saborear em sua plenitude. O que os impedia eram os partidos e os polticos da base do governo. " aquela histria, olhar a ma e dizer: 'Como vou pegar essa ma? Tem uma regra do jogo que eu preciso atender. Do contrrio, no vou comer a ma'", disse Camargo. A "regra do jogo", o caminho mais curto para alcanar a rvore e apoderar-se dos frutos, como as investigaes da Operao Lava-Jato j revelaram, era pagar propina. Durante os dois primeiros mandatos de Lula e  ao longo de todo o primeiro mandato de Dilma Rousseff, o PT usou o pomar para governar. Distribuir as mas virou um mtodo, um atalho que o partido encontrou para garantir a fidelidade dos amigos e seduzir eventuais adversrios, transformando-os em cmplices de um crime contra toda a sociedade. Na semana passada, a polcia bateu na porta de alguns convivas do banquete. 
     Os investigadores cumpriram 53 mandados de busca e apreenso nas residncias e nos escritrios de polticos suspeitos de corrupo no escndalo da Petrobras. Entre os alvos estavam parlamentares e ex-parlamentares, incluindo dois ex-ministros do governo da presidente Dilma. No episdio mais emblemtico da ao, os agentes devolveram ao noticirio poltico-policial a antolgica Casa da Dinda, a residncia do ex-presidente Fernando Collor, cenrio do escndalo que, nos anos 90, levou ao primeiro impeachment de um presidente da Repblica. Os policiais apreenderam documentos, computadores e trs carros de luxo da frota particular do atual senador: um Lamborghini Aventador top de linha (3,5 milhes de reais), uma Ferrari vermelha (1,5 milho de reais) e um Porsche (700.000 reais). Nem o bilionrio empresrio Eike Batista em seus tempos de bonana exibia modelos to exclusivos  e caros. 
     Collor, at onde se sabe,  um empresrio de sucesso. Sua famlia  proprietria de emissoras de televiso e rdio em Alagoas, terrenos, apartamentos, ttulos, aes, carros... A relao de bens declarados pelo senador soma 20 milhes de reais, o suficiente para garantir vida confortvel a qualquer um. 
     Collor, apesar disso, no resistiu  tentao e adentrou o pomar petista. Em 2009, ele assumiu a presidncia da Comisso de Infraestrutura do Senado. Com significativo poder para fiscalizar os destinos das obras do PAC, a vitrine de campanha da ento candidata Dilma Rousseff, o senador se apresentava como um obstculo para o governo. A ma lhe foi oferecida. O ex-presidente Lula entregou ao senador duas diretorias da BR Distribuidora, uma subsidiria da Petrobras  a diretoria da Rede de Postos de Servio e a de Operaes e Logstica. No comando desse feudo, segundo os investigadores, Fernando Collor criou o seu balco particular de negcios dentro da maior estatal brasileira, o que lhe renderia milhes em dividendos. 
     Segundo depoimentos colhidos na Lava-Jato, o esquema obedecia a uma lgica simples. As empresas que tinham interesse em assinar contratos com a BR acertavam antes "a parte do senador". Foram dezenas de contratos. A polcia j identificou dois que passaram por esse crivo. Num deles, de 300 milhes, um empresrio do ramo de combustveis pagou a Collor 3 milhes de reais em propinas para viabilizar a compra de uma rede de postos em So Paulo. A operao foi revelada pelo doleiro Alberto Youssef em acordo de delao premiada. Encarregado de providenciar o suborno ao senador, Youssef fez a entrega de "comisses" em dinheiro, depsitos diretos na conta do parlamentar e transferncias para uma empresa de fachada que pertence a Collor. O Lamborghini, at recentemente o nico do modelo no Brasil, est em nome da tal empresa, o que fez os investigadores suspeitar que o carro foi bancado com dinheiro desviado da Petrobras. Desde o ano passado, quando explodiu a Operao Lava-Jato e as torneiras da corrupo se fecharam, o IPVA do carro no  pago pelo ex-presidente. A dvida acumulada  de 250.000 reais. Mas no  desapego do senador. Zeloso, ele s usava o carro para passeios espordicos a um shopping de Braslia. Quando isso acontecia, o Lamborghini permanecia sob a vigilncia de dois seguranas do senador, que fixavam um permetro de isolamento em torno do veculo para evitar a aproximao dos curiosos. A frota de luxo de Collor  revela Lauro Jardim, na seo Radar  conta com um Rolls-Royce Phantom 2006, mais exclusivo ainda do que o Lamborghini. 
     O segundo caso envolve um contrato de 650 milhes de reais. Para conquist-lo, Ricardo Pessoa, o dono da UTC, uma das empreiteiras envolvidas no escndalo, disse ao Ministrio Pblico que repassou ao grupo do senador 20 milhes de reais em propina. Pessoa afirmou que o ardil nesse caso foi to escancarado que ele foi levado a conversar sobre o tal "acerto" diretamente com o diretor da BR Distribuidora indicado pelo senador. O intermedirio do encontro foi Pedro Paulo Leoni Ramos, amigo do ex-presidente e seu ex-assessor, que tambm teve a casa e o escritrio vasculhados pela polcia. Como prova do que revelou, o empresrio entregou  Justia uma planilha na qual esto registrados todos os repasses de dinheiro feitos para quitar o "acerto" com o senador. Resumindo, em apenas dois negcios na Petrobras, Collor ganhou mais dinheiro do que tudo o que declara ter conseguido juntar como patrimnio em seus 65 anos de vida. 
     "Fui submetido a um atroz constrangimento, fui humilhado. Depois de tudo o que passei em minha vida poltica, tive de viver uma situao jamais por mim experimentada", afirmou, ao acusar o procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, de persegui-lo injustamente. Os investigadores informaram que os carros foram apreendidos como forma de garantir o futuro ressarcimento do dinheiro desviado dos cofres pblicos. A ao sobre o ex-presidente  o incio de uma nova etapa da investigao, que mira um lado do esquema de corrupo que at a semana passada continuava impune. Empreiteiros esto presos, os partidos envolvidos foram identificados, os operadores contaram boa parte do que sabiam, mas quase meia centena de polticos que participaram da partilha continuava impune. As investigaes j revelaram que o dinheiro desviado da Petrobras foi usado para financiar planos de poder megalomanacos, campanhas eleitorais e, como mostram as primeiras investidas sobre deputados e senadores, mordomias, variadas mordomias. 
     Assim como Collor, que converteu sua lucratividade no petrolo em uma frota de carros de luxo, outros polticos com mais ou com menos influncia e poder, mas igualmente inseridos na quadrilha, usaram a Petrobras para financiar uma vida de sonhos. O ex-presidente Lula, por exemplo, tornou-se dono de um trplex  beira-mar, no Guaruj (SP), e hspede frequente de um confortvel stio no interior de So Paulo, graas  relao promscua com o empreiteiro Lo Pinheiro, da OAS, preso e acusado de pagamento de propinas. A pedido do ex-presidente, o empreiteiro baiano patrocinou uma reforma no stio e deu uma mo para terminar a construo do prdio em So Paulo. A Bancoop, a cooperativa ligada ao PT e responsvel pela obra, havia falido, deixando milhares de muturios sem receber seus imveis. Lula pediu uma ajuda ao empreiteiro, que prontamente o atendeu. O apartamento ganhou um elevador privativo para que o ex-presidente acessasse a cobertura e o stio recebeu mveis modernos, piscina aquecida, tanque de peixes, pedalinhos... 
     O dinheiro desviado financiou a revoluo  na vida  de alguns revolucionrios de outrora. Jos Dirceu, o mensaleiro que se tornou "consultor de sucesso", embolsou 39 milhes de reais. Parte generosa dessa quantia, estranhamente paga por seus servios enquanto ele estava preso, sabe-se agora, foi desviada dos cofres da Petrobras com a ajuda do ex-tesoureiro nacional do PT Joo Vaccari Neto, que tambm fez a famlia enriquecer e conseguiu seu apartamento na praia graas  OAS. Apreciador de bons vinhos, o ex-ministro experimentou os prazeres que o dinheiro farto pode proporcionar. Desde que deixou o governo Lula, ele fez inmeras viagens pelo Brasil e ao exterior, sempre a bordo de jatos particulares financiados por seus "clientes" preferenciais, os empreiteiros do petrolo. Dirceu s se hospedava em resorts de luxo, preferia as roupas de grife e fazia questo de dividir as mordomias com outro companheiro de luta. Na foto abaixo, ele est numa praia da Bahia com Rosemary Noronha (de chapu), a ex-chefe do escritrio da Presidncia, amiga ntima de Lula e demitida tambm por corrupo. A tentao dos carros importados, dos jatos e das bebidas caras seduziu a nova elite da corrupo brasileira. O ex-deputado petista Andr Vargas, hoje preso, no dispensava um jatinho nem nas frias com a famlia. A polcia descobriu que seu patrimnio reunia manses, stios e, claro, carros importados. A exemplo dos petistas, outros polticos da "base aliada", como o ex-deputado Luiz Argolo, levavam uma vida de fausto com o dinheiro oriundo da Petrobras. Ele chegou a ganhar um helicptero de presente de seus patrocinadores. Os corruptos so todos iguais. 

23 MILHES DE REAIS
Inimigo visceral de Lula e do PT nos anos 90, o ex-presidente Fernando Collor converteu-se gostosamente em um dos mais fiis aliados de Lula e do PT quando retornou  poltica como senador. A reviravolta teve um preo: um feudo bilionrio na Petrobras. No controle de duas diretorias da BR Distribuidora, uma subsidiria da estatal, Collor estabeleceu o prprio balco de negcios no petrolo. Em apenas dois contratos, faturou uma verdadeira fortuna. No primeiro, levou 3 milhes de reais para favorecer uma rede de postos de gasolina de So Paulo. No segundo, embolsou 20 milhes de reais para manipular uma licitao em favor da construtora UTC, do empreiteiro Ricardo Pessoa. O ex-presidente apeado do poder aplacou seus fantasmas nos milhes do petrolo. De caador de marajs, revelou-se ao pas, na semana passada, como o mais bem-acabado deles. Em sua garagem na Casa da Dinda, a polcia apreendeu uma Ferrari 458 Itlia, um Porsche Panamera e um Lamborghini Aventador Roadster avaliados em quase 6 milhes de reais. Dos tempos de presidente aos tempos de aliado petista, s o valor do Fiat Elba  que mudou.

Uma questo de mtodo
O resultado das buscas feitas pela Polcia Federal na casa do senador Fernando Collor, autorizadas pelo STF, ilustra com perfeio a fase final do modelo petista de fazer poltica.
1989 - Collor e Lula disputaram a Presidncia da Repblica em meio a virulentas trocas de acusaes.
1992 - Na oposio, Lula liderou a campanha pelo impeachment do presidente Collor.
2006 - O que parecia improvvel virou realidade: interesses comuns uniram os dois adversrios.
2014 - O senador alagoano apareceu como beneficirio do esquema na Petrobras.
2014 - Indicados de Collor ocuparam postos-chave na estatal durante todo o governo Dilma.
2015 - A polcia descobriu que o senador fez fortuna com dinheiro do esquema de corrupo da Petrobras.

1 MILHO DE REAIS
O ex-deputado Luiz Argolo, preso no Paran, era considerado um dos mais vorazes polticos do petrolo. Quase que diariamente, Argolo recebia pacotes de dinheiro no apartamento funcional da Cmara, em eventos polticos e at no estacionamento do Congresso. A fartura era tanta que ele viajava pelo menos trs vezes por semana a So Paulo para buscar as malas de dinheiro no escritrio de Alberto Youssef. Em algumas viagens, fretava um avio particular para conseguir carregar as malas, que, de to pesadas, rebaixavam o porta-malas do carro durante o transporte. O dinheiro sujo jorrava to facilmente que Argolo ganhou do doleiro um helicptero avaliado em quase 1 milho de reais. Com tantos luxos bancados por Youssef, Beb Johnson, como ele era chamado no grupo, no escondia sua admirao pelo doleiro. "Queria ter falado isso ontem. Acabei no falando. Te amo", disse certa vez a Youssef, por mensagem' de celular, logo depois de receber um pacote de dinheiro. O doleiro retribuiu: "Eu amo voc tambm. Muitoooooooooo".

500 MILHES DE REAIS
O ex-tesoureiro do PT Joo Vaccari Neto sempre foi uma figura respeitada por sua competncia em arrumar dinheiro. Diferentemente dos colegas, diziam os cardeais do PT, ele no usava sua funo para encher os prprios bolsos, como faziam os mensaleiros. Disciplinado, dedicado e, acima de tudo, discreto, Vaccari foi o motor das eleies petistas na ltima dcada. Desviando recursos da Cooperativa dos Bancrios (Bancoop) ou cobrando propinas das empreiteiras do petrolo, ele era o principal responsvel pela estrutura financeira que elegeu e reelegeu Dilma Rousseff. Em apenas uma das diretorias da Petrobras, amealhou 500 milhes de reais em propinas. Mas o tesoureiro no era de ferro. Os investigadores descobriram que sua filha, uma universitria, acumulava 1,6 milho de reais em patrimnio. A bolada tinha origem em remessas de Vaccari, que, assim como o amigo Lula, virou um feliz proprietrio de um apartamento no Guaruj (SP), imvel construdo pela OAS, uma das empreiteiras envolvidas no esquema. 

4 MILHES DE REAIS
Um dos polticos mais influentes do PT, Andr Vargas est entre os muitos petistas que mudaram de vida depois do petrolo. Vargas foi o primeiro poltico a cair na teia da Lava-Jato. Pilhado em conversas "estranhas" com integrantes da quadrilha, ele renunciou  vice-presidncia da Cmara, foi obrigado a deixar o PT e ainda teve o mandato cassado pelos colegas. Mas a runa poltica no prejudicou sua sade financeira. Proprietrio de um Monza velho e batido nos primeiros anos como parlamentar, Vargas saiu da poltica milionrio, dono de manses, fazendas e carros importados.  custa do dinheiro sujo do petrolo, o ex-deputado cruzou vrias vezes o pas em jatos particulares financiados por Alberto Youssef, seu amigo. Apenas duas de suas empresas de fachada, abertas para mascarar o recebimento de propina, futuraram pelo menos 4 milhes de reais. O ex-deputado, preso em Curitiba, sonhava em presidir a Cmara.

2,4 MILHES DE REAIS
O empreiteiro Lo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS, foi durante muitos anos um dos mais fiis amigos de Lula no poder. Ao longo dos dois governos do petista, transformou a construtora em um imprio com milhes de dlares do BNDES em investimentos no Brasil e no exterior. A proximidade entre os dois era tal que Lula ficava  vontade para pedir toda sorte de favor. Preso em novembro do ano passado, Pinheiro sentiu-se abandonado e comeou a rascunhar o esboo do que seria uma possvel delao premiada. Essas anotaes revelaram como era lucrativa a amizade de Lula com o empreiteiro. Logo depois de deixar o governo, Lula ocupou um stio em Atibaia, no interior de So Paulo. O empreiteiro tambm construiu o trplex de Lula no Guaruj (SP). A pedido do petista, Lo Pinheiro realizou uma reforma de luxo na propriedade de Atibaia sem cobrar do ex-presidente um nico tosto. Outro empreiteiro generoso com Lula foi Ricardo Pessoa. O dono da UTC admitiu ter entregue 2,4 milhes de reais em dinheiro vivo para a campanha do petista  reeleio, em 2006. Desviada da Petrobras, a bolada saiu de uma conta na Sua.

43 MILHES DE REAIS
Depois de cair em desgraa no escndalo do mensalo, em 2005, o ex-ministro Jos Dirceu decidiu refazer a vida como "consultor". Sua carteira de clientes era um dos segredos mais bem guardados da Repblica - e no por acaso. Descobriu-se que as consultorias nada mais eram que uma forma de as grandes empresas pagarem propina ao ex-ministro por obras no governo. Em sete anos, ele juntou uma fortuna de 39 milhes de reais. Antes de ser preso, viajava apenas em jatos particulares e curtia a vida nos melhores resorts do pas. Nas ltimas semanas, as investigaes da Lava-Jato desmontaram de vez a farsa. O empreiteiro Ricardo Pessoa apresentou documentos que mostram que Dirceu recebeu dinheiro desviado da Petrobras no perodo em que estava preso na Papuda. Para acobertar o pagamento de propina, simulava contratos de consultoria. Na semana passada, o lobista Jlio Camargo admitiu ao juiz Srgio Moro que repassou 4 milhes de reais em dinheiro vivo a Dirceu. Novamente, era propina do petrolo. 


3#2 ESCALO SUPERIOR
Delator da Lava-Jato diz ter pago propina ao presidente da Cmara, Eduardo Cunha, e ao ex-ministro Jos Dirceu, chefe da Casa Civil no governo Lula.
DANIEL PEREIRA

     Alvo de inqurito no Supremo Tribunal Federal (STF), os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Cmara, Eduardo Cunha, adotaram como ttica confrontar o governo para no ter de dar explicaes sobre as acusaes que pesam contra eles no petrolo. Essa estratgia deu certo at a semana passada, quando o Congresso substituiu a administrao petista, momentaneamente, no papel de protagonista no noticirio sobre o maior escndalo de corrupo da histria do pas. Em depoimento  Justia, o lobista Jlio Camargo disse que pagou a Cunha uma propina de 5 milhes de dlares relacionada a um contrato de navios-sonda da Petrobras. Delator do petrolo, o doleiro Alberto Youssef j havia citado o deputado como beneficirio dos recursos desviados da estatal. Camargo no s confirmou a acusao como forneceu detalhes do caminho percorrido pelo dinheiro sujo entre os cofres pblicos e o bolso do parlamentar mais poderoso do pas. Ele contou ao juiz Srgio Moro que se reuniu com Cunha num edifcio comercial no Rio de Janeiro em 2011, num domingo, para saber por que aliados do deputado ameaavam investigar contratos firmados entre uma empresa que ele representava e a Petrobras. 
     Nesse encontro, Cunha teria cobrado o pagamento de 10 milhes de dlares em propina  metade para ele e metade para Fernando Baiano, operador do PMDB. Por receio de represlia na execuo dos contratos, segundo alegou  Justia, Camargo diz ter desembolsado o valor exigido. Ele tambm afirmou ter quitado a fatura por temer pela segurana de seus familiares. Delator do petrolo, Camargo j havia contado a mesma histria, num depoimento mantido em sigilo, ao Ministrio Pblico Federal. Aos procuradores, ele apresentou uma planilha com o fluxo do pagamento dos 5 milhes de dlares a Cunha. Antes de chegar ao deputado, a propina teria passado por empresas de Alberto Youssef e Fernando Baiano. 
     Cunha acusou Camargo de ser mentiroso. O deputado alega que o lobista sofreu presso do procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, e do governo para emendar sua delao premiada e citar seu nome. Na sexta-feira passada, Cunha reagiu anunciando o rompimento com a presidente Dilma e a base governista: "Tem um banco de aloprados no Planalto". 
     Ele se disse agora parte da oposio e informou que a Cmara abrir CPIs para apurar desmandos no BNDES e nos fundos de penso. Na quinta-feira de manh, Cunha disse que rechaaria tentativas de cassao de Dilma com base em decises tomadas por ela no mandato anterior, caso das "pedaladas fiscais". Menos de 24 horas depois, ele estava com outro nimo. 
     A aliados, disse que vai encomendar pareceres de juristas renomados para sustentar a tese de que a reprovao das contas do governo em 2014 pode, sim, levar ao impedimento de Dilma. "Agora,  guerra", disse Cunha. 
     Amigo de petistas graduados, Jlio Camargo tambm forneceu  Justia novos elementos contra o mensaleiro Jos Dirceu. Como se sabe, Camargo mantinha um caixa clandestino para pagar propina a Renato Duque e Pedro Barusco, operadores do PT na Diretoria de Servios da Petrobras. Ao juiz Srgio Moro, o lobista declarou que tirou dessa "conta-corrente" 4 milhes de reais e os entregou a Dirceu. Ou seja: o ex-chefe da Casa Civil condenado por corrupo no mensalo recebeu 4 milhes de reais no petrolo, e no por servios de consultoria, como alega. Delegados e procuradores j identificaram pagamentos milionrios de empreiteiras investigadas na Lava-Jato ao petista mesmo quando ele estava preso em Braslia. Outro delator, Milton Pascowitch, tambm afirmou que Dirceu figura entre os beneficirios do petrolo  seja da verba roubada, seja de favores como voos gratuitos em jatos executivos. 
     Advogados do ex-ministro apresentam recursos e mais recursos, de forma preventiva, para impedir a volta dele  cadeia. O risco de nova priso, no entanto,  claro. Jos Dirceu j ameaou reagir partindo para o ataque com a revelao de tudo o que sabe e nunca contou. Dirceu teme tambm pela priso de Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, seu irmo e scio. Os amigos contam que, se o irmo de Dirceu for arrastado para o escndalo, ele explodir. Na semana passada, Camargo revelou que parte da propina foi entregue justamente nas mos de Luiz Eduardo.

150 MILHES DE REAIS
Lobista de uma das empreiteiras envolvidas no escndalo, Jlio Camargo contou aos investigadores que uma de suas funes era intermediar pagamentos de propina entre as empresas e os polticos. Ele calcula ter repassado 150 milhes de reais ao PT e ao PMDB.

5 MILHES DE DLARES
O delator disse que pagou ao presidente da Cmara, Eduardo Cunha, 5 milhes de dlares em propina relacionada a um contrato da Petrobras. Ele chegou a levar os procuradores aos locais em que teriam sido feitos os pagamentos do suborno.

4 MILHES DE REAIS
O petrolo rendeu uma bolada ao mensaleiro Jos Dirceu  nada a ver com o alegado servio de consultoria que ele diz ter prestado. O delator contou que em apenas uma operao repassou ao ex-ministro 4 milhes de reais da propina devida ao PT.


3#3 O FIO DA MEADA ASSUSTA
Lula  investigado por ajuda a empreiteira no exterior. Isso  legtimo para um candidato a melhor ex-presidente do Brasil. Mas h detalhes mal contados nessa histria.
DANIEL PEREIRA

     O ex-presidente Lula nomeou os quatro diretores da Petrobras que foram presos e acusados de participar do maior esquema de corrupo da histria do pas. Ele tambm recebeu favores pessoais de empreiteiras investigadas no petrolo e foi contratado por elas para fazer palestras no Brasil e no exterior. Em sua campanha  reeleio, em 2006, contou com uma doao de 2,4 milhes de reais da UTC, dinheiro que, segundo o prprio dono da construtora, Ricardo Pessoa, teve origem no petrolo e no foi declarado  Justia Eleitoral. Apesar de tantas evidncias, Lula no  oficialmente investigado na Operao Lava-Jato. Sua paz de esprito, porm, no est garantida. O petista confidenciou a aliados ter medo de ser preso. 
     A Procuradoria da Repblica no Distrito Federal abriu, na semana passada, um procedimento criminal para apurar a suspeita de trfico de influncia de Lula em favor da Odebrecht, a maior empreiteira do pas e cliente preferencial de recursos do BNDES. Nesse caminho, os investigadores muito provavelmente vo por uma rua sem sada. No h nada de errado, a princpio, em um ex-presidente se tornar, para ficar na expresso usada por Lula, "um caixeiro-viajante" do Brasil no exterior  e cobrar por isso. Esse  um papel esperado de ex-presidentes dispostos a continuar construindo seu legado mesmo depois de apear do poder. Mas, como suspeitam os promotores, o diabo pode estar nos detalhes. 
     Ao deixar o Planalto, Lula fez viagens a pases da Amrica Latina e da frica, pagas pela Odebrecht, com o objetivo declarado de abrir caminho para negcios da construtora e fazer palestras. Em 2011, Lula visitou o Panam na companhia do ex-ministro Jos Dirceu  at ento com a roupagem pblica de consultor de sucesso  e de Alexandrino Alencar, diretor da Odebrecht. Com Alencar, Lula tambm viajou a Angola, Gana e Portugal. Houve ainda uma empreitada em que os papis foram invertidos. Ao representar o governo brasileiro em misso oficial  Guin Equatorial, o ex-presidente convidou Alencar a integrar a comitiva, o que causou desconforto entre funcionrios do Itamaraty. A dupla dinmica Lula e Alexandrino Alencar mostrava grande eficincia  e abria o caminho da riqueza para outras pessoas ligadas ao ex-presidente. VEJA revelou que a Odebrecht contratou Taiguara Rodrigues dos Santos, sobrinho de Lula, para trabalhar na construo de uma hidreltrica em Angola, obra financiada com dinheiro do BNDES. Essa cortesia ajudou a transformar o sobrinho empresrio especializado na reforma de varandas de apartamentos em empreiteiro internacional de sucesso. No deixa de ser mais um feito do lulopetismo em sua misso sagrada de promover a ascenso social das massas. 
     A convite de Alencar, Taiguara fez parte de uma comitiva de empresrios e representantes do governo brasileiro que visitou as obras do Porto Mariel, em Cuba, tambm tocadas com dinheiro do BNDES. A Procuradoria da Repblica no Distrito Federal agora quer saber que vantagens o ex-presidente obteve da Odebrecht pelos servios de lobby. Para isso, recorrer aos colegas que participam da Operao Lava-Jato. Se a Justia autorizar, a Procuradoria ter acesso a documentos, mensagens, planilhas e depsitos que faam referncia a obras da Odebrecht financiadas pelo BNDES ou que tenham sido negociadas com a intermediao de Lula. Haver tambm o compartilhamento de depsitos feitos pelas empreiteiras investigadas no petrolo em contas de Lula, de seu instituto e de sua empresa de palestras. Os investigadores j sabem que a Camargo Corra repassou, entre 2011 e 2013, 4,5 milhes de reais ao instituto e  empresa de palestras de Lula, inclusive sob a sugestiva rubrica de "bnus eleitoral". Delegados e procuradores tambm tm dados intrigantes sobre Alexandrino Alencar. 
     Os delatores Alberto Youssef e Rafael ngulo Lopez disseram que Alencar organizava o esquema de pagamento de propinas no exterior. Lopez, encarregado de entregar dinheiro vivo a beneficirios do petrolo, contou que fazia o controle dos pagamentos diretamente com Alencar na sede da Odebrecht. Ao ser abordado pelos policiais no momento de sua priso, Alencar fez trs telefonemas. Um deles para o Instituto Lula. 

PALESTRAS
Lula defendeu os interesses da empreiteira Odebrecht em pases da Amrica Latina e da frica. Usou sua influncia e prestgio para viabilizar contratos em Cuba, Angola, Venezuela, Bolvia e Panam  e era remunerado por palestras pagas pela empresa.

COMPANHEIRO DE VIAGEM
Nas misses ao exterior, o ex-presidente tinha como parceiro o ex-diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar. Alm de ciceronear Lula, Alencar, que est preso,  investigado por organizar o pagamento de propina no exterior aos beneficirios do petrleo.

O NOVO EMPREITEIRO
Sobrinho do ex-presidente Lula, Taiguara Rodrigues dos Santos ganhava a vida como um pequeno empresrio at cair nas graas da Odebrecht. Foi contratado como parceiro da construtora no exterior e hoje desfruta de imveis e carros de luxo. 


3#4 EM TRS ANOS, NAS RUAS
Os menores condenados pelo estupro de quatro meninas no Piau, uma das quais morreu, voltaram a matar. Desta vez, a vtima foi o cmplice que delatou o grupo. Pelos dois crimes brbaros, os adolescentes ficaro no mais do que trs anos numa casa de correo, de onde sairo com a ficha limpa.  o que diz a lei. Mas agora ela pode mudar.
KALLEO COURA E FELIPE FRAZO

     Eles voltaram a matar. Os adolescentes condenados pelo estupro e tortura de quatro jovens, uma das quais morreu, em Castelo do Piau, desta vez escolheram como vtima um de seus comparsas. Internados desde maio, eles passaram a dividir um quarto em um abrigo para menores infratores em Teresina (PI), na vspera do crime. Na quinta passada, pouco antes da meia-noite, trs deles  F.J.C.J., de 17 anos, I.V.I. e B.F.O, ambos de 15  decidiram se vingar, de Gleison Vieira da Silva, de 17 anos, que havia confessado  polcia sua participao no crime e relatado detalhes sobre o papel dos outros no episdio. Depois de o terem sufocado, os trs adolescentes deram-lhe chutes e socos e bateram diversas vezes sua cabea contra o cho. Desfigurado, Gleison foi levado do quarto ainda com vida por um funcionrio, mas morreu logo em seguida. 
     Pelo crime de Castelo do Piau, ocorrido em 27 de maio, os quatro adolescentes haviam sido condenados a internao por at trs anos, a pena mxima determinada pelo Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA). Agora, esse segundo assassinato no acrescentar um nico dia de internao ao tempo j previsto. Em 2018, os trs assassinos estaro de volta s ruas, usufruindo o status de ru primrio como o mais reto dos cidados, j que o ECA probe qualquer registro criminal no caso de infratores menores de 18 anos. 
     Na semana passada, o Senado deu um passo importante para mudar parte dessa realidade. Por 43 votos a 13, os parlamentares aprovaram um texto do senador Jos Serra (PSDB-SP) que amplia de trs para dez anos a punio mxima para jovens de 12 at 18 anos que cometeram assassinatos ou crimes hediondos  como estupro, latrocnio e sequestro. O texto ainda precisa ser aprovado pela Cmara. 
     A lei brasileira  uma das mais lenientes do mundo quando se trata de punir adolescentes criminosos. A ampliao da punio em casos de crimes hediondos a igualaria s normas do Canad, por exemplo. Mesmo assim, ela continuaria a ser mais branda que a de pases como Frana, Reino Unido e Estados Unidos. 
     O projeto de Serra se prope a corrigir essa grave distoro da Justia, mas despreza outra. Promotores da Infncia e da Juventude afirmam que, alm de estender a pena para determinados delitos,  fundamental estabelecer um tempo mnimo de internao para os autores desses crimes. 
     Um levantamento do Ministrio Pblico do Estado de So Paulo mostrou que nove em cada dez infratores no passam sequer um ano internados. De 1552 casos analisados, que incluam homicdio e estupro, em apenas oito seus autores ficaram detidos por dois anos ou mais. "S os menores que tm pssimo comportamento na Fundao Casa  que ficam internados por mais tempo", critica o promotor Thales de Oliveira. O tempo exguo de internao se deve, sobretudo,  escassez de vagas nas casas de correo, a exemplo do que ocorre no sistema prisional adulto. 
     A superlotao dos estabelecimentos destinados a abrigar infratores e seu despreparo para receb-los  no caso da morte de Gleison, o fato de ele estar no mesmo quarto que os comparsas que delatou configura "um erro de procedimento bsico e gritante", como afirma o promotor Cezrio Cavalcante  so s algumas das muitas falhas a ser corrigidas antes de se pr em prtica qualquer mudana na lei. Os entraves, porm, mesmo sendo muitos e complexos, no podem servir de argumento para que se perpetue a impunidade. 

MASMORRAS JUVENIS - Se as prises brasileiras so "a universidade do crime", os centras de internao para menores no esto muito longe de ser "o ensino mdio do crime". Um levantamento de VEJA em dezesseis das 27 capitais nas cinco regies do pas mostra que, de cada dez desses estabelecimentos, quatro se encontram em condies to ruins que j foram fechados ou esto sob ameaa de interdio pela Justia. A exceo  So Paulo, onde h problemas, mas no to graves quanto no resto do pas.

AS PROPOSTAS QUE ESTO NA MESA
Como se complementam e o que dizem os trs principais projetos sobre punio a menores infratores em anlise no Congresso.

A DE JOS SERRA
O que estabelece: Amplia de trs para dez anos a punio mxima de jovens a partir dos 12 anos que cometerem crimes hediondos e assassinatos
Qual a sua situao: Acaba de ser aprovada no Senado, mas ainda precisa passar na Cmara antes de ir  sano presidencial
Como fica diante das outras: Ao contrrio do projeto de Sampaio, no inclui adolescentes que praticarem trfico de drogas.

A DA CMARA
O que estabelece: A partir dos 16 anos, e no mais dos 18, os jovens que cometerem crimes hediondos e contra a vida sero julgados como adultos
Qual a sua situao: Foi aprovada em primeira votao, mas, como altera a Constituio, precisa passar por outra rodada na Cmara e mais duas no Senado
Como fica diante das outras: Por envolver mudana na Constituio, prevalece sobre os projetos de Serra e Sampaio em caso de contradio

A DE CARLOS SAMPAIO
O que estabelece: Aumenta de trs para oito anos a punio mxima de jovens de 16 a 18 anos internados por crimes hediondos e trfico de drogas
Qual a sua situao: Est pronta para ser votada na Cmara e, se for aprovada, ter de passar no Senado
Como fica diante das outras: Por atingir tambm os condenados por trfico, difere do projeto de Serra e concorre com ele. Como o de Serra est mais adiantado, este dever ser juntado  proposta. A forma final depender de acordo
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4# ECONOMIA 22.7.15

     4#1 A PACINCIA TEM LIMITE
     4#2 DURO CHOQUE DE REALIDADE
     4#3 TEDIOSO, JAMAIS

4#1 A PACINCIA TEM LIMITE
A queda de brao entre a presidente Dilma e o Congresso abala o plano de ajuste do ministro da Fazenda e refora o temor de que a recesso se estenda at o prximo ano.
BIANCA ALVARENGA

     Os primeiros seis meses de Joaquim Levy no Ministrio da Fazenda foram de trabalho duro. O ministro arquitetou um plano para corrigir os excessos oramentrios dos anos anteriores.  O objetivo imediato era resgatar a credibilidade da poltica econmica e evitar a perda do grau de investimento (o que foi assegurado, ao menos no curto prazo), um status que garante a atrao de bilhes de dlares em recursos externos para o pas. O segundo objetivo, uma consequncia do primeiro, era restabelecer as condies para a volta do crescimento. Para tanto, Levy empenhou-se e negociou pessoalmente com lderes partidrios para convenc-los da necessidade imperiosa de aprovao das medidas de corte de despesas e de aumento de receitas no Congresso. Ele conseguiu obter avanos importantes como a ampliao das exigncias para a concesso do seguro-desemprego. Esse esforo, porm, enfrenta uma resistncia crescente, na medida em que se intensifica o clima de animosidade entre os parlamentares e a presidente Dilma Rousseff. O aprofundamento da recesso contribui para dificultar a adoo de aes necessrias,  mas impopulares.  um prenncio de que o trabalho do ministro s vai ficar mais difcil. Os parlamentares no s resistem em fazer avanar o ajuste fiscal como aprovam projetos que elevam as despesas, como a mudana no clculo dos benefcios da Previdncia e o reajuste de at 78% para o Judicirio. 
     O plano de Levy previa que a maior parte das medidas fosse aprovada no primeiro semestre. "O rearranjo fiscal pretendia ser feito na lgica maquiavlica, com todo o mal aplicado de uma s vez e o bem sendo colhido aos poucos", diz Joo Augusto de Castro Neves, diretor da consultoria de risco poltico Eurasia. Mas, segundo ele, dado o cenrio poltico conturbado, o governo se v obrigado a executar o ajuste em etapas. Outro contratempo  que Levy deixou de ter sempre a ltima palavra na equipe econmica. Ele no participou, por exemplo, da formulao do plano de proteo ao emprego que permite a reduo do salrio e da jornada de trabalho, que foi pensada para ser aplicada em alguns setores da indstria. Quando assumiu, Levy criticou a deciso de seu antecessor no cargo, Guido Mantega, de agraciar determinados setores com o corte de tributos sobre a folha de pagamentos, em vez de estender o benefcio a toda a economia. Essa  uma medida, alis, que o ministro esperava reverter parcialmente para que entrasse em vigor j neste segundo semestre, mas  bem provvel que isso fique para 2016.  
     Diante de tantos contratempos, o governo deve conseguir economizar neste ano apenas a metade do que pretendia, o equivalente a 0,6% do PIB, o que ser insuficiente para conter a trajetria de aumento da dvida pblica. "O governo cortou na carne, cumpriu a promessa de reduzir as despesas livres e pagou as contas atrasadas. No entanto, a economia entrou em retrao muito antes do esperado, e a arrecadao caiu, o que comprometeu os resultados", diz o economista Mansueto Almeida. No incio do ano, bancos e consultorias estimavam que o crescimento do pas seria de 0,4% em 2015 e que ele aceleraria para 1,8% em 2016. Essas projees tm sido constantemente revisadas para baixo por causa da crise na produo e no consumo: espera-se que o PIB encolha 1,5% neste ano e que s cresa 0,5% em 2016.  consenso que a recesso vai se aprofundar no segundo semestre. A cada dia til, 12.000 pessoas passam a engrossar o contingente de desempregados no pas. "Recesso econmica e crise poltica formam uma combinao complicada. So dois processos que se autoalimentam", diz Rafael Cortez, analista da consultoria Tendncias. Levy j no esconde o descontentamento: "s vezes, uma rodada nos manda ir uma casa para trs, e  a gente quer andar  para a frente".

LADEIRA ABAIXO
A correo da poltica econmica no impede a piora das expectativas sobre a retomada
PROJEO DO MERCADO PARA O PIB EM 2015
+0,4% Levy assume a Fazenda Janeiro e 2015
-1,5% Semana passada

COM REPORTAGEM DE ISABELLA DE LUCA


4#2 DURO CHOQUE DE REALIDADE
Por que eles no fazem um plebiscito agora para perguntar aos gregos se eles querem fortuna, sade e vida eterna?

     As lideranas europeias decidiram dar mais uma chance  Grcia. O pas ter direito a novos emprstimos para continuar a pagar as dvidas e manter a economia em funcionamento, o que significa que ainda no ser desta vez que a zona do euro perder um de seus integrantes. Mas no  uma soluo fcil e h dvidas sobre se ser bem-sucedida. Para que os 86 bilhes de euros sejam liberados integralmente, os gregos tero de levar a srio um programa rigoroso de reduo do inchao improdutivo do setor pblico e de abertura da economia, algo que no aconteceu desde o primeiro pacote de resgate, em 2010. No se trata da nica precondio para que a Grcia volte a ter perspectivas reais de crescimento. A dvida de 320 bilhes de euros, o equivalente a 1,75 vez o tamanho do seu PIB, foi classificada pelo Fundo Monetrio Internacional como insustentvel, a no ser que haja um perdo parcial e um prazo de carncia para o pagamento. Por ora, no entanto, tais concesses no esto na mesa de negociaes. 
     O acordo, ainda assim, deixa lies. Uma delas  que o radicalismo sai caro e que o bom-senso acaba prevalecendo apesar da tentao populista. O primeiro- ministro da Grcia, Alexis Tsipras, que o diga. No fim de junho, as negociaes com os lderes europeus avanavam em direo  renovao do pacote de socorro, mas ele preferiu interromper as conversas e convocar um referendo popular, estremecendo uma relao j conturbada. A deciso dos gregos de rechaar as medidas de austeridade deixou de ter relevncia diante da iminncia do caos no pas com a perda de confiana no sistema bancrio e a falta  de euros em circulao. Tsipras e o seu partido de extrema esquerda no poder, o Syriza, tiveram de ceder  realidade e acataram as exigncias dos credores, mais draconianas do que as que haviam sido rejeitadas na consulta popular. Uma das medidas mais duras prev que a Grcia faa a transferncia de ativos que totalizem 50 bilhes de euros para a formao de um fundo de privatizao supervisionado pelas autoridades europeias. O rigor do acordo acirrou o debate sobre o futuro da Unio Europeia, levando em conta a noo de que o bloco foi pensado tambm como um projeto poltico que serviria para dirimir as animosidades histricas entre os pases do continente. Outra crtica  que, mais uma vez, no se discutiu como atacar aquela que  apontada como a principal falha da zona do euro: enquanto o Banco Central Europeu cuida das polticas monetria e cambial do bloco, cada pas  responsvel pela sua gesto oramentaria.  o que est na raiz da crise da dvida da Grcia e de outros pases nos ltimos anos e que mantm abertas as portas para que casos assim voltem a se repetir. 


4#3 TEDIOSO, JAMAIS
Um livro saboroso sobre a trajetria do empresrio Ablio Diniz  e sobre a aventura de empreender.

     No fosse o Brasil um pas onde tantos ainda tm dvidas sobre se vale mesmo a pena deixar o capitalismo cumprir sua misso de criar riqueza e desenvolvimento, a biografia de empreendedores j teria se estabelecido como gnero por aqui tempos atrs. Tanto quanto a vida de polticos ou artistas, a dos homens de negcios pode ter um valor exemplar e oferecer uma janela privilegiada para que se entenda um perodo histrico. Um bnus: a trajetria deles jamais  tediosa. S aos poucos, contudo, esse filo  desbravado. A jornalista Cristiane Corra, ex-editora executiva da revista EXAME, est entre os pioneiros. H dois anos ela lanou Sonho Grande, que fala da trajetria de Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, os controladores da AB InBev. O livro j ultrapassou 100 semanas na lista de mais vendidos de VEJA. A segunda empreitada de Cristiane sai agora: Ablio (Primeira Pessoa; 272 pginas; 39,90 reais), sobre o empresrio "determinado, ambicioso e polmico"  para citar a autora  que fez do Grupo Po de Acar o maior varejista do Brasil. 
     Ao contrrio do que aconteceu em Sonho Grande, Cristiane teve amplo acesso a Ablio Diniz e seu crculo de parentes e colaboradores para escrever. S com o prprio empresrio, foram mais de dez entrevistas. Isso permite que a narrativa avance pela intimidade do personagem. Mas no se devem esperar historinhas picantes.  sob o foco do trabalho que as relaes com os pais e irmos, com os filhos e mulheres, so abordadas. Da mesma forma, o episdio traumtico do sequestro de que Diniz foi vtima, em 1989, refm de um grupo de bandidos e radicais de esquerda, ocuparia um espao maior numa biografia tradicional. Aqui, ele  tratado de maneira breve e pe em destaque, sobretudo, traos de carter como certa soberba, que marcava o estilo do empresrio e tambm o fazia crer que seria sempre capaz de cuidar da prpria segurana. 
     A pea de resistncia do livro  a narrativa da maior batalha entre scios a que o Brasil j assistiu: aquela pelo controle do Grupo Po de Acar, na qual se opuseram Diniz e o dono do grupo francs Casino, Jean-Charles Naouri. Um acordo previa que em 2012 a gesto do Po de Acar seria transferida ao scio europeu  resguardada a possibilidade de que Diniz permanecesse na presidncia do conselho de administrao. Pouco antes desse prazo, Diniz iniciou um namoro com outro gigante, o Carrefour, o que Naouri interpretou como traio. A clareza e os detalhes com que se narra esse embate intrincado, que consumiu 500 milhes de reais e envolveu exrcitos de advogados e banqueiros, so notveis. Assim como o equilbrio, em um livro "autorizado", com que se expem as razes de ambas as partes. 
     Ablio poderia ser ainda melhor se algumas pginas a mais houvessem sido redigidas para explicar as peculiaridades do setor de varejo no Brasil, ou compor uma crnica mais rica da crise econmica causada pelo Plano Collor, que quase levou o Po de Acar  falncia no comeo dos anos 90. Seriam modos de ampliar o escopo do livro. Mas Diniz  um personagem forte o bastante para prender o leitor  sua aventura  a aventura de empreender. 
CARLOS GRAIEB 
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5# INTERNACIONAL 22.7.15

FOI BOM PARA O IR
O acordo nuclear diminui o risco de uma bomba atmica persa, mas acirra as rivalidades no Oriente Mdio.
NATHALIA WATKINS

     Foram necessrios quase dois anos de negociaes para que o Ir, os Estados Unidos, a Unio Europeia e cinco potncias acertassem um acordo para tentar barrar o caminho da bomba nuclear iraniana. O texto final, feito em Viena, na ustria, teve 159 pginas e cinco anexos. "Esse  o bom acordo que procurvamos", disse John Kerry, o secretrio de Estado americano, que compareceu de muletas, pois sofreu um acidente de bicicleta na Frana. Entre os principais progressos est esticar o tempo em que o Ir, uma vez tomada a deciso, ser capaz de fabricar material suficiente para uma bomba atmica. De trs meses, esse intervalo dever passar para um ano. Outro avano foi estabelecer uma maneira de visitar as instalaes em que o pas desenvolve seus projetos militares, algo que no acontece desde 2009. Fora a satisfao dos diplomatas, em nenhum lugar do mundo festejou-se tanto o acordo quanto em Teer. Ao voltar para casa, o ministro das Relaes Exteriores do Ir, Javad Zarif, foi saudado como heri. Nas ruas, pessoas gritavam "Morte aos Estados Unidos" e "Morte a Israel". 
     A maior conquista iraniana foi a promessa de amenizao das sanes econmicas, que dificultam a exportao de petrleo e geram inflao internamente. Caso cumpra o combinado de desligar dois teros de suas centrfugas, que enriquecem o urnio necessrio para a bomba, e envie para o exterior ou dilua 98% do material j processado, o pas poder resgatar 100 bilhes de dlares congelados no exterior e, num curto prazo, dobrar sua venda de petrleo. Alm disso, embora seja preciso adaptar algumas instalaes, a infraestrutura construda clandestinamente no ser destruda. Assim, em dez anos, o Ir poder voltar a ligar na tomada as centrfugas avanadas, capazes de produzir o recheio das bombas em menor tempo. "O pas persa ganhou mais legitimidade poltica e poder econmico, o que mover o delicado equilbrio de poderes do Oriente Mdio a seu favor", diz o analista de segurana Ilan Berman, vice-presidente da consultoria Conselho Americano de Poltica Externa. 
     Com um acerto to benfico, as probabilidades de o Ir respeit-lo inicialmente so maiores. "Eles no vo descumprir o que foi pactuado porque tiveram de fazer poucas concesses e os ganhos so grandes", diz o historiador americano Aaron David Miller, do Wilson Center, em Washington. Ainda  assim, como  isso que o Ir tem feito at agora, os despistes so provveis. A reivindicao anterior dos inspetores era que eles pudessem fazer visitas de surpresa s instalaes militares, "a qualquer hora e em qualquer lugar". Dessa forma, seria mais fcil pegar os cientistas no flagra caso violassem o combinado. O texto de Viena, contudo, estabelece que uma comisso conjunta deve analisar os pedidos de visita mais delicados, que enfrentam alguma resistncia. O processo de anlise levar um total de 24 dias. S ento seriam abertas as portas para os inspetores da Agncia Internacional de Energia Atmica (AIEA). " tempo suficiente para realizar manobras suspeitas e ocultar rastros", diz Miller, que foi assessor do Departamento de Estado para o Oriente Mdio. 
     A possibilidade de resgatar os bilhes no exterior e de exportar petrleo trar um respiro financeiro ao Ir. Com 40 bilhes de dlares, o governo poder terminar cinquenta projetos, como a construo de estradas e pontes. Com outros 20 bilhes, renovar sua frota de aviao civil. O restante ter fins diversos. O temor  que o Ir capitalizado insufle ainda mais os conflitos regionais. A ajuda financeira a Bashar Assad, na Sria, custa em torno de 6 bilhes de dlares anuais. A guerra civil nesse pas j matou mais de 300.000 pessoas. "Se apenas 10% de seus fundos forem usados para aumentar o apoio ao governo srio e a grupos terroristas, j ser um salto significativo", diz o professor de direito internacional Orde Kittrie, especialista em proliferao nuclear da Universidade Estadual do Arizona. 
     Em 1938, pouco antes de tornar-se primeiro-ministro da Inglaterra, Winston Churchill era contra dar concesses  Alemanha. "Parece que teremos de escolher entre a guerra e a vergonha. Acho que vamos escolher a vergonha e, depois, ter uma guerra em condies ainda mais adversas do que no presente." Suas previses pessimistas tornaram-se realidade. Ao impulsionar as negociaes com os iranianos, o presidente americano Barack Obama fez o possvel para evitar uma guerra. A esperana global  que a tentativa no acabe em vergonha. 
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6# GERAL 22.7.15

     6#1 GENTE
     6#2 ESPORTE  UM RIO QUE LEVA AO RIO
     6#3 ESPAO  A AVENTURA EM BUSCA DE PLUTO
     6#4 POLCIA  ARSENAL DE CONEXES
     6#5 ESPECIAL  CADA UM NA SUA
     6#6 PERFIL  LICENA PARA MANDAR

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Alexandre Salvador, Karina Moraes e Thas Botelho

CABEA MAIS QUE FRESCA
Ela tornou-se h pouco a rainha do Egito e, nos prximos captulos, descobrir que nasceu fruto de uma traio. Para viver a movimentada histria de Nefertari, da novela Os Dez Mandamentos, muita peruca, aulas de histria e lembrana dos cultos evanglicos que frequentava com a famlia passam pela cabea de CAMILA RODRIGUES; mas nada que se compare, em resultado to impactante, aos quinzenais cortes de mquina 3. A carequinha, alm de realar os traos perfeitos da atriz, trouxe mudanas no seu cotidiano. "Minhas roupas no combinam mais comigo, nesse estilo boyzinho. Precisei comprar outras. Eu adoro o corte, mas canso de ouvir na rua: 'No se preocupe. Seu cabelo cresce de novo'", diverte-se Camila. Para a trama, ela tem usado no rosto prteses que simulam rugas. Nada que canse sua beleza. Ao contrrio. A audincia da novela  de respeitar, ao passo que a da concorrente, Babilnia, na qual seu ex-marido trabalha, no tem nada de faranica.

1,33 METRO. E MEIO
Ao voltar para casa, depois dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, a ginasta carioca FLVIA SARAIVA, 15, vai rever em seu armrio algo que comprou e guardou para usar num momento especial: um par de sapatos dourados de salto alto. Us-lo ser um ato simblico. Primeiro, porque, em parte, ela brilhou e tem motivos para comemorar: ganhou duas medalhas de bronze e  a aposta do pas na prxima Olimpada. Segundo, porque os motivos a lamentar tm a ver com seus pezinhos. "Flvia perdeu as duas ltimas provas porque se esforou muito nas anteriores e estava com dor nos ps", alega Georgette Vidor, chefe da delegao feminina de ginstica. Terceiro, porque o sapato vai aumentar em muito seu diminuto corpinho de 1,33 metro; ou melhor: 1,335. Segundo o mdico da equipe, Flvia tem 0,5 centmetro a mais do que foi dito no Pan. Um grande salto. 

FOICE, MARTELO E MARIDO
Eles se conheceram no colgio, trinta anos atrs. ALEXIS TSIPRAS, o hoje enrolado premi grego, gostava de jogar vlei e seguir o Panathinaikos, seu time de futebol do corao. J PERISTERA BATZIANA mudou-se para o lado negro da fora. Frequentava as reunies do partido comunista. S conseguiu arrastar o namorado para os encontros depois que ele lesionou o joelho e no pde mais jogar. Muito mais aguerrida que Tsipras, ela foi apelidada de Red Betty e deu ao filho mais novo do casal o nome de Orpheus Ernesto, em homenagem a Che Guevara. At agora, Betty, que  engenheira eltrica, manteve-se longe dos holofotes. Dias atrs, porm, o presidente Franois Hollande disse a um jornal satrico francs: "Tsipras me falou que, se ele cedesse s presses por austeridade da Unio Europeia, Betty iria pedir a separao". Diante dos ltimos acontecimentos...

CRIANA DE FRIAS D UM TRABALHO...
Depois que os atores MATHEUS BRAGA, 13, e KALEB FIGUEIREDO, 10, foram proibidos de atuar na pea Memrias de um Gigol, a me de Matheus saiu em defesa de MIGUEL FALABELLA, o diretor, e em ataque ao juiz que decretou o veto, alegando possveis "danos psquicos, haja vista o peso e a vulgaridade de alguns trechos". Diz Priscila Braga: "Acompanhei os ensaios. Com o Falabella, eu me propus a falar com o juiz, mas ele no aceitou. Foi uma censura prvia". Em protesto, os dois meninos apareceram na estreia da pea com a boca tampada. Na mesma semana, o juiz tambm retirou da apresentao do programa Bom Dia e Cia Matheus Ueta, 11, e Ana Julia, 9. O problema: a carga horria pesada, das 9 s 11h15, de segunda a sexta-feira. 

ABAFANDO O CASO
 verdade que ela tem a conta bancria preparada, mesmo assim foi um pancado. Devido a uma ordem judicial, a cantora carioca ANITTA teve de depositar 3 milhes de reais em juzo, referentes a uma queda de brao que ela trava com sua ex-empresria. Uma acusa a outra de quebra de contrato e a outra acusa a uma de malversao de ganhos. " muito dinheiro, mas nada que me abata", diz a cantora. "Para ela, esse dinheiro significa nada, mas, para mim,  o mundo", diz Kamilla Fialho, que briga no "s" por 3, mas por 10 milhes. Um dia depois da deciso judicial, a nova msica de Anitta vazou, misteriosamente, na internet. Para alguns, o vazamento teve o dedinho da funkeira, numa tentativa de abafar o caso. "No fui eu. Mas abafou", diz ela. 


6#2 ESPORTE  UM RIO QUE LEVA AO RIO
Abril no Rio. FALTAM 380 dias.
O baiano Isaquias Queiroz, vencedor de duas provas de canoagem em velocidade no Pan-Americano,  a grande novidade para a Olimpada.
ALEXANDRE SALVADOR, DE TORONTO

     O Comit Olmpico Brasileiro (COB) tem uma meta ambiciosa para a Olimpada do Rio, em 2016. O plano  conseguir dez medalhas a mais que nos Jogos de 2012, saltando de dezessete pdios para 27. Como alcanar esse objetivo? Ser preciso levar ouro, prata ou bronze em pelo menos trs modalidades novas, que nunca viram as cores da glria. Uma das apostas  a canoagem. Ou, para ir direto ao ponto, um atleta, o baiano Isaquias Queiroz, de 21 anos, forte como um touro, com 85 quilos de msculos e adrenalina distribudos em 1,75 metro de altura. Isaquias saiu de Toronto com duas medalhas de ouro e uma de prata no Pan-Americano. Na prova de velocidade de 1000 metros  a chamada C1-1000  , ele deixou para trs o canadense Mark Oldershaw, medalhista de bronze em Londres, um atleta muito popular, no por acaso escolhido para ser o porta-bandeira dos anfitries na cerimnia de abertura do Pan. Foi, digamos, quase um 7 a 1 a favor do Brasil, um gol de Ghiggia. Nos 200 metros  a C1-200  , Isaquias venceu com um tempo que o faria campeo na Olimpada de 2012. A prata ele dividiu com Erlon Silva, na C2-1000 ( bom j nos acostumarmos com a nomenclatura da modalidade, talvez seja realmente necessrio para o ano que vem). 
     Trs medalhas no pescoo fizeram de Isaquias uma celebridade instantnea s margens do antigo Canal Welland, a 135 quilmetros de Toronto, usado comercialmente entre 1932 e 1977, a principal rota de transporte da regio dos Grandes Lagos, hoje transformado em raia esportiva. Uma tradio do Pan de 2015, celebrada por uma profuso de selfies feitas pelos atletas, era uma visita ao lado canadense das Cataratas de Nigara, perto dali. Isaquias disse no. "Queria mesmo era estar em casa no dia 27", disse a VEJA, sorriso amplo a emoldurar a euforia. "Vai ser o maior festo." Festo, no caso,  o que vai acontecer agora no fim do ms em Ubaitaba, no sul da Bahia, pela celebrao de 82 anos de emancipao do municpio. Ubaitaba, a terra natal de Isaquias, tem no prprio nome a explicao da origem de vencedores como o bicampeo pan-americano. O nome em tupi-guarani significa "cidade das canoas". 
     Cabe, portanto, uma breve interrupo para entender por que o rio canadense que leva Isaquias ao Rio em 2016 passa pelas corredeiras baianas do lugar onde pela primeira vez ele enfiou um remo na gua. Ubaitaba  banhada pelo Rio de Contas. So 620 quilmetros da nascente, na Chapada Diamantina, at a foz, no Oceano Atlntico, em Itacar. No surpreende que, daquelas guas, tenham sado outros medalhistas no Pan: Erlon, aquele que dividiu um segundo lugar com Isaquias, e Valdenice Conceio, bronze na prova feminina da C1 200 metros, filha da foz de Itacar. Canoas, por ali, sempre foram o mais til e popular meio de transporte, tanto de pessoas quanto de mercadorias, desde que os ndios tupiniquins descobriram que no havia modo mais rpido de deslocamento. 
     Se queriam velocidade, mostram ilustraes de sculos passados feitas por europeus ao descobrir o Novo Continente, e com apenas um remo, o jeito era se postar de joelhos, a perna direita no fundo, a esquerda  frente, de modo a obter o mximo de propulso.  intuitivo  intuio que, naturalmente, tiveram todos os agrupamentos indgenas que cresceram em reas fluviais, como no Canad e nos Estados Unidos, onde brotou a modalidade que agora faz um brasileiro  de sangue indgena nas veias, nem  preciso ressaltar  derrotar os grandes do esporte. 
     As canoas sempre foram uma necessidade para Ubaitaba, vetor da economia local. Mas somente a partir da dcada de 80 passaram a representar tambm uma chance de conquistas esportivas, com a fundao da Associao Cacaueira de Canoagem. Jefferson Lacerda, integrante da primeira equipe brasileira de canoagem a disputar uma Olimpada, em 1992,  figura central dessa histria. Foi ele quem assinou o consrcio para comprar os dez primeiros barcos olmpicos da cidade. "As crianas de Ubaitaba agora querem ser o Isaquias quando crescerem", diz Lacerda. "Muitas delas sero maiores que ele, no futuro; tomara." 

UM GESTO SEM POLTICA
     Houve quem visse na continncia prestada por alguns dos atletas brasileiros no pdio do Pan-Americano de Toronto alguma mensagem poltica.  fico. A saudao militar nada tem a ver, para ficar num momento muito conhecido, com o gesto de Tommie Smith e John Carlos, ouro e bronze nos 200 metros do atletismo na Olimpada de 1968, na Cidade do Mxico: com os punhos cerrados, eles ergueram os braos ao estilo dos radicais Panteras Negras dos Estados Unidos. Os americanos foram expulsos dos Jogos e da Vila Olmpica. A continncia dos brasileiros foi apenas um agradecimento ao apoio das Foras Armadas ao chamado esporte de alto rendimento. H 610 atletas agraciados com cerca de 2500 reais mensais e espao para treinamento, fruto de parceria dos ministrios da Defesa e do Esporte. Em Toronto, h 123 militares na delegao. "Fizemos a iniciao l dentro, pegamos o esprito do militarismo", diz a judoca Mayra Aguiar, medalha de prata no Pan. 
     Para os dirigentes do Comit Olmpico Brasileiro (COB), "no se trata de exigncia, mas apenas de uma recomendao; no  um ato poltico,  uma homenagem  bandeira e ao hino do pas". Nenhum atleta foi obrigado a cumprir a reverncia, mas VEJA apurou que um dos medalhistas do jud no bateu a mo fechada na testa, como havia sido sugerido aos esportistas atrelados a quartis, postura que teria irritado a alta cpula militar. Mas, afinal de contas, o gesto  permitido em competies esportivas? Se fosse numa Olimpada, no - o Comit Olmpico Internacional trata o pdio como espao imaculado. A Organizao Desportiva Pan-Americana, que rege o Pan, veta explorao religiosa ou poltica. No h, portanto, agora em 2015, nenhum risco de punio. 

COM REPORTAGEM DE RENATA LUCCHESI


6#3 ESPAO  A AVENTURA EM BUSCA DE PLUTO
A chegada da sonda New Horizons ao longnquo ponto do sistema solar d ainda mais flego  recente retomada do interesse pela explorao espacial.
RITA LOIOLA

     Na semana passada, imagens de Pluto invadiram as redes sociais. Era difcil entrar no Facebook e no deparar com pessoas e pginas de notcias compartilhando incrveis fotos enviadas pela sonda New Horizons do limiar do sistema solar. A nave viajou 5 bilhes de quilmetros, ao longo de nove anos, a um pico de velocidade de 75.000 quilmetros por hora, at se aproximar a uma distncia de 12.500 quilmetros do planeta ano, o ltimo a orbitar o Sol. Ao chegar l, fotografou detalhes do corpo celeste de 2370 quilmetros de dimetro (descobriu-se que  um pouco maior do que se calculava antes) e de sua superfcie, repleta de incrveis montanhas de gelo. Porm, indo alm do Facebook  a misso instigou um interesse global pelos estudos do cosmo, mas que deve durar poucos dias, como ocorre com os tpicos fenmenos da internet , o que de importante representa a aventura da Nasa, a agncia espacial americana? Foram investidas dcadas de pesquisa, em um planejamento desenhado desde os anos 90, apenas para enviar belas imagens para a Terra?  evidente que no. 
     A sonda coletar informaes de Pluto que podem, por exemplo, auxiliar cientistas a compreender como se formou o sistema solar. Por estar a 5,9 bilhes de quilmetros do Sol (quarenta vezes a distncia da Terra em relao  estrela), esse corpo celeste  considerado "preservado" por astrofsicos, tendo mudado pouco desde o incio de sua formao, junto com a do sistema solar, h mais de 4 bilhes de anos. Por isso, anlises de sua estrutura devem servir de base a teorias de como se deu a origem de nossa estrela, de planetas vizinhos e da prpria Terra.  
     O sucesso da misso ajuda a reviver empreitadas mais ousadas de explorao espacial, campo que viu parcos avanos nas ltimas dcadas.  a primeira vez que se envia uma nave para observar o pequenino Pluto, enquanto Vnus e Marte j ganharam mais de quarenta misses cada um. O feito indito j se prova relevante. Como disse o astrofsico Neil deGrasse Tyson em entrevista a VEJA, "o ato de explorar vale por si, pois se expandimos fronteiras aumentamos o conhecimento, o que inevitavelmente leva a descobertas cientficas e tecnolgicas". 
     A misso a Pluto, corpo celeste descoberto s recentemente, em 1930  que deixou de ser categorizado como planeta e virou planeta ano em 2006, aps debates que levaram sete anos , serve a vrios propsitos. Primeiro, exigiu clculos apuradssimos para a sintonia fina do percurso, como a conta que permitiu aproveitar a fora gravitacional de Jpiter para encurtar a viagem. Tcnicas como essa devem ser replicadas em outras misses, incluindo possveis viagens tripuladas. O sucesso da New Horizons  um marco da retomada do interesse pelo espao. A aventura humana pelo cosmo comeou em 1961, com o astronauta russo Yuri Gagarin, e o nimo se estendeu at os anos 80, principalmente com as viagens tripuladas da Nasa para a Lua. Desde ento, porm, houve pouco progresso. De cinco anos para c, o interesse foi revivido, at mesmo por pases como a China, e os Estados Unidos voltaram a investir pesado. Cientistas agora alimentam ambies como excurses s luas de Jpiter.  um projeto amplo destinado a culminar em uma viagem tripulada a Marte, prometida pela Nasa para a dcada de 2030.

A viagem de 5 bilhes de quilmetros durou nove anos, e a sonda da Nasa usou a gigantesca fora gravitacional de Jpiter para ganhar impulso em direo ao planeta ano, situado no limiar do sistema solar.

O LANAMENTO  19 de janeiro de 2006 
Distncia at Pluto:  5 bilhes de quilmetros
A sonda New Horizons saiu da base de Cabo Canaveral, na Flrida, nos Estados Unidos.

O IMPULSO  28 de fevereiro de 2007
Distncia at Pluto: 4,2 bilhes de quilmetros
Os cientistas calcularam a trajetria de tal maneira que, ao passar por Jpiter, a New Horizons aproveitou a fora da gravidade do maior planeta do sistema solar para pegar um impulso que fez com que a jornada encurtasse trs anos.

A IBERNAO - 27 de junho de 2007
Distncia at Pluto: 4 bilhes de quilmetros
A sonda desligou a maior parte de seus instrumentos e sensores para economizar bateria.

A PASSAGEM POR SATURNO - 8 de junho de 2008
Distncia at Pluto: 3,9 bilhes de quilmetros
Foi a primeira espaonave que ultrapassou a rbita de Saturno desde que a misso Voyager 2 realizou o mesmo feito, em 1981.

O DESPERTAR  6 de dezembro de 2014
Distncia at Pluto: 260 milhes de quilmetros
Depois de 1873 dias em hibernao, a sonda mudou seu estado para "ativo" e voltou a enviar sinais de rdio para a Terra.

O ENCONTRO - 14 de julho de 2015
Distncia at Pluto: 12.500 quilmetros
Em um rasante, a misso chegou o mais prximo de Pluto, fez fotos e recolheu dados que sero enviados nos prximos meses e serviro de base para estudos sobre o planeta ano.


6#4 POLCIA  ARSENAL DE CONEXES
Investigao de desvio de milhes no Bope chega a dois coronis. Com amigos poderosos, eles continuam nos mesmos altos cargos.
LESLIE LEITO

     Era para ser uma operao de rotina. Na madrugada do dia 22 de junho, na favela da Covanca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, tropas do Batalho de Operaes Policiais Especiais (Bope) entraram em confronto com traficantes, trocaram tiros, mataram quatro e apreenderam fuzis, munio e drogas. H duas semanas, em seguida  publicao em VEJA de uma reportagem que revela a ocorrncia de desvios de conduta no batalho de elite, a Corregedoria da Polcia Militar escancarou sua suspeita de irregularidade na operao na Covanca ao revistar casas e pertences de seis agentes, entre eles dois majores que teriam comandado a ao. Motivo da comoo: o sumio de uma fortuna que pode chegar a 15 milhes de reais, enterrada em tonis no alto do morro, fruto do trfico de drogas. Os seis investigados foram transferidos para outros quartis, a punio de praxe do Bope, mas, conforme revelado no site de VEJA pouco depois, no real comando da ao estava gente muito mais grada. Em campo, a bordo de um "caveiro", subiu o morro o prprio comandante do Bope, o tenente-coronel Carlos Eduardo Sarmento. Na retaguarda, em um auditrio do 18 Batalho de Polcia Militar a 2 quilmetros da ao, acompanhava tudo por rdio e vdeo o subchefe do Comando de Operaes Especiais (ao qual o Bope  subordinado), coronel Fbio de Souza. Sarmento e Souza permanecem em seus postos, intocados. Procurada, a Polcia Militar no deu explicaes. Mas VEJA apurou que os dois tm fortes laos pessoais e comerciais com a alta cpula da Polcia Militar. 
     Sarmento foi scio durante anos de uma empresa de segurana privada (o que no  proibido), a SDS Sistemas de Defesa e Segurana Ltda. A seu lado na sociedade estava Wilman Ren Alonso, hoje chefe do mesmo COE onde o outro coronel, Fbio de Souza,  o nmero 2. Mais ainda: antes deles, a SDS tinha sido de outro mandachuva, o atual comandante-geral da PM, Alberto Pinheiro Neto. Os policiais costumavam inclusive utilizar instalaes do Bope (o que, sim,  proibido) para dar cursos de gesto de segurana a empresas privadas  suas clientes. Fechando o crculo, na dcada de 2000 o prprio coronel Souza trabalhou na SDS de Pinheiro Neto. S Alonso continua na sociedade, mas todos se tornaram grandes amigos. 
     "A Corregedoria da PM est fazendo o trabalho correto, que  investigar sob sigilo. Ao trmino da investigao, a populao do Rio de Janeiro tem a minha garantia de que tudo ser apresentado de forma transparente", diz o secretrio de Segurana do Rio, Jos Mariano Beltrame. O inqurito conduzido pela Corregedoria investiga mais de setenta policiais. Dos dois envolvidos na coordenao da operao, Souza tem o currculo mais recheado, e no por citaes meritrias. Entre idas e vindas, porm, nunca deixou de desempenhar funes de destaque. Durante as manifestaes populares no Rio em 2013, foi exonerado do comando do Batalho de Choque devido ao excesso de violncia da sua tropa. "Castigo": a transferncia para a escolta pessoal de Beltrame. Em janeiro de 2014, em um mpeto premonitrio, postou em uma rede social: "Est nas escrituras. Em abril de 2015 assumirei a PM". Quase acertou. Um ano depois, Pinheiro Neto chegou ao posto e devolveu Souza ao comando do Batalho de Choque, onde teria feito carreira se VEJA no tivesse revelado, semanas depois, mensagens em que incitava a tropa  violncia e fazia apologia do nazismo. Afastado de novo, retornou trs semanas antes da operao na Covanca para ser o brao-direito do coronel Alonso, chefe do COE e scio at hoje da aglutinadora SDS. Tanto Alonso quanto Souza foram promovidos a coronel, a patente mxima da polcia, pelo amigo comandante Pinheiro Neto. Sarmento era o prximo na fila, cotadssimo para a lista de promoes a ser divulgada no fim de agosto. Agora, no olho do furaco, deve ter de esperar mais um pouco. 


6#5 ESPECIAL  CADA UM NA SUA
Os robs alimentados por algoritmos nos substituiro em tarefas padronizadas e repetitivas. Mas nunca nas atividades que exigem a delicada imperfeio do ser humano.
FILIPE VILICIC, RAQUEL BEER E RITA LOIOLA

     EM 1956, JOHN MCCARTHY, UM cientista da computao do Dartmouth College, ento com menos de 30 anos, cunhou a expresso inteligncia artificial (IA). De forma simples como os aros pesades de seus culos, ele definiu o novo campo de estudos: "A engenharia de fabricar mquinas inteligentes". A ambio de criar robs dotados de esperteza  anterior, remete aos mitos da Grcia antiga, tal qual o de Talo, o gigante de bronze criado pelos deuses. Mas foi s a partir de meados do sculo passado, com o trabalho de estudiosos como McCarthy, que a chance de produzir andrides comeou a ser levada a srio. Rapidamente brotaram medos exagerados e possibilidades descabidas, refletidas na fico em obras da literatura. O exemplo mais evidente  o clssico Eu, Rob, de Isaac Asimov  no qual se apresentaram as Trs Leis da Robtica, que controlariam a IA e, desrespeitadas, gerariam monstros de ferro e alumnio nas veias. Hoje, sabe-se que no passa de bobagem a mirabolante viso de um futuro de guerras fratricidas contra nossas crias. A IA progrediu e, silenciosamente, est perto de superar a capacidade mental humana, principalmente em tarefas padronizadas e exatas, como nos clculos financeiros ou na promessa de carros sem motorista. No h o conflito desenhado, a no ser no cinema.  cada um na sua. As mquinas no param de evoluir, mas estritamente como mquinas. Os humanos sero cada vez mais humanos, com fraquezas, inseguranas e imperfeies. Pedir a um software capaz de pintar como Van Gogh que cortasse a prpria orelha deixaria os algoritmos tontos, perdidos, incapazes de entender o comando suicida. 
     A tecnologia deu largos passos nas ltimas dcadas. Os softwares correm discretamente no corao de aparelhos que mexem com nossa vida, sem que percebamos a existncia deles. A inteligncia artificial est no iPhone, no Google, no Netflix, aonde quer que se v. Um dos servios mais dependentes das mquinas que aprenderam a aprender  o streaming de msica (veja na pg. 82). O Spotify o Google Play Music ou o recm-lanado Apple Music s existem porque se alimentam de um complexo software equipado com algoritmos capazes de detectar o que o usurio ouve, quais gneros prefere, em quais dispositivos acessa as msicas, as faixas que escolheu no tocar at o fim e tantas outras variveis. So dados que guiam os programas de forma a personaliz-los para cada consumidor. O resultado so recomendaes bem razoveis, sugestes de rdio nica (cujas sequncias de canes so determinadas pelo uso frequente) e o j habitual mtodo de indicaes no estilo "se voc gostou do rapper americano Kanye West, curtir Jay Z". 
     Os limites desses servios soam evidentes. Um software sabe quantas vezes ouvimos Beatles em uma nica semana, em quais circunstncias, mas  incapaz de distinguir o i-i-i de She Loves You, de 1963, das experincias sonoras de A Day in the Life, de 1967, por exemplo  e quem curte uma usualmente no gosta da outra.  possvel que, muito em breve, um computador perceba essas nuances, mas continuar sendo uma mquina. 
     "Algoritmos do escala ao trabalho, padronizam, fazem associaes em velocidade incomparvel em relao  mente humana", diz Elias Roman, gerente do Google Play Music, servio de streaming do gigante da internet. "Mas falta ao software a intuio que permite a ns, seres humanos, indicar a amigos uma cano que pode no ser bvia, mas que tocar o corao." Parece irnico um funcionrio do Google, cujo motor de pesquisas teve sucesso por possuir um algoritmo complexo, concluir que humanos saibam mais de msica do que computadores. Mas no . As empresas digitais comearam a notar quais os limites da IA, para onde ela evoluir e quais fronteiras nunca deve ultrapassar. 
     Roman foi chamado pelo Google para acrescentar o toque humano ao servio de streaming. Ele  criador do Songza, aplicativo lanado em 2007 e cultuado por no depender intrinsecamente de algoritmos. Em vez de softwares, contratou crticos musicais que usam dados somente como base para criar playlists mais surpreendentes. Mesmo com uso restrito a Estados Unidos e Canad, j conquistou 6 milhes de ouvintes. VEJA teve acesso aos planos de vinda do Songza para o Brasil, o que deve ocorrer no prximo ms. Aqui, desembarcar em nova verso, com tapa do Google, que mescla a edio humana com a automatizao do Play Music. "Ser um servio que chamo de 'concierge', um recurso integrado ao app do Google, no qual se poder checar o que os crticos recomendam. O tato humano  capaz de criar experincias mais emocionais", afirma Roman. 
     Uma das empresas que mais trabalham com estatsticas para entregar ao consumidor o que supem ser seu desejo, e na hora que ele bem entender,  o Netflix. No entanto, no h algoritmo que consiga medir matematicamente a emoo de ver e ouvir Nina Simone em um extraordinrio documentrio lanado recentemente pelo servio  What Happened, Miss Simone?  cujo ponto de largada foi o gosto aferido da audincia (so mais de 50 milhes de assinantes em todo o mundo) por mulheres fortes, histrias de cunho poltico e boa msica. O.k., mas Nina cantando a ria I Love You, Porgy, da pera Porgy and Bess, de George e Ira Gershwin, sentada ao piano, no  coisa que uma mquina alcance. "If you can keep me /I wanna stay with you forever / and I'll be glad", com um fraseado musical que rivaliza com a verso de Billie Holiday,  definitivamente intraduzvel em nmeros. A delicada e precisa forma com que Nina entoa a palavra forever, como se para sempre a ouvssemos, triste e lindamente,  uma partida de outro esporte, no o de Big Data. Os algoritmos no podem reproduzir o canto de Nina (nem  isso que pretendem, nesse caso), mas menos ainda estimar os sentimentos que provoca. S mesmo um ser humano, e nem todos, para perceber detalhes. 
     Instado a explicar a qumica do sucesso dos filmes produzidos pelo Netflix, o diretor de contedo da empresa, Ted Sarandos, pai do documentrio dedicado a Nina Simone, disse o seguinte  revista New Yorker. "Provavelmente  uma mistura de 70% e 30%". Mas o que  o 70 e o que  o 30? "Setenta por cento so os dados colhidos; 30%, a intuio. Mas os 30% precisam estar no topo, se tudo realmente fizer sentido." Uma concluso possvel: s sobrevivero no novssimo mercado de entretenimento as empresas que, tendo profissionais de faro para descobrir gnios artsticos, trabalharem tambm com vasto arsenal de informaes da chamada opinio pblica. Fora disso no h chance. Nina Simone talvez seja demais, mas a minerao de dados acertou na mosca as chances de interesse por um personagem como o Frank Underwood (Kevin Spacey) da onipresente srie House of Cards, matematicamente elaborada a partir da vontade dos outros, mas com direo de algum de carne e osso do ramo, David Fincher (de Clube da Luta, A Rede Social e Garota Exemplar). 
     Haver ainda avanos largos quando os algoritmos tiverem acesso a mais informaes digitalizveis, com nossa rotina no Facebook, as msicas que ouvimos na infncia, os gostos de nossos familiares, os tipos de show que frequentamos. No demorar para que possam compilar esses dados e, com base neles, ser capazes de mostrar mesmo canes obscuras de que nem a pessoa tinha ideia de que gostaria. Em todos os trabalhos em que sobressai a padronizao, a repetio de tarefas, seremos derrotados. 
     Um estudo da organizao inglesa Nesta, ncora de projetos inovadores, estima que ao menos 70% das profisses sero executadas por robs. Algumas j so, a exemplo do atendimento de telemarketing, que em pases de Primeiro Mundo  realizado mais por softwares do que por pessoas. Outras poderiam s-lo agora, mas falta adaptar a sociedade.  o caso de motoristas, substituveis pelos veculos autnomos que comeam a circular em testes, como os do Google e da Mercedes-Benz. So carros que utilizam um radar afeito a captar, com apoio de GPS, o que ocorre ao redor. A mquina no desrespeita leis nem atropela pedestres. Se nas ruas circulassem apenas automveis sem condutor, o trnsito seria hipoteticamente tranquilo. 
     Sabemos, portanto, aonde as mquinas ainda no chegaram  temos dvidas do que podero fazer, mas certamente temos certeza do que j fazem. Nos Estados Unidos e em outros pases de legislao simples e eficiente, lavrada em linguagem compreensvel e reveladora, e no em termos que obscurecem, a maior parcela dos litgios de pequenas causas est sendo resolvida por softwares. Na Holanda, so to simples as possibilidades de acordo no caso de divrcio que as solues legais so penduradas em computadores. No Brasil, muitas startups vo pelo mesmo caminho, mas enfrentam a selva jurdica nacional que soa atavicamente avessa  inovao. "Estamos continuamente examinando a lista de coisas que mquinas no podem fazer  jogar xadrez, dirigir carro, traduzir lnguas  e riscando as tarefas agora possveis para elas", disse Tim Berners-Lee, o criador da web. "Um dia chegaremos ao fim da lista." 
     Um dia, sim, mas no agora  embora nunca tenhamos ido to longe. A inteligncia artificial, depois de imaginada, sempre foi uma das buscas mais permanentes da cincia. Em 1950, Alan Turing, o matemtico cujas pesquisas inauguraram a computao moderna, criou um teste, ao qual chamou de "jogo da imitao", que d nome ao excelente filme lanado no ano passado em torno de sua biografia. No jogo, algum encaminha perguntas escritas a um humano e a uma mquina e tenta acertar, com base nas respostas, qual dos dois  a pessoa. Para Turing, antes da virada para o sculo XXI os computadores seriam to bons no jogo da imitao que "um interrogador mdio no teria mais de 70% de chances de fazer a identificao correta aps cinco minutos de perguntas". Errou. Turing achava que mquinas poderiam conceber pensamentos novos, mas entendia as impossibilidades. "Em vez de tentar produzir um programa que simule a inteligncia adulta, por que no tentar produzir um que simule a inteligncia de uma criana?" disse. "Se ela fosse submetida a um curso adequado de educao, poderamos obter um crebro adulto." E, espetacularmente, ele mesmo tratou de distinguir uma e outra, a criana da mquina recm-construda. "Provavelmente no teria olhos. No se poderia mandar tal criatura para a escola sem que fosse alvo de zombaria." No mximo, sairia andando como o T-800 de Arnold (Ill be back") Schwarzenegger do recente O Exterminador do Futuro: Gnesis, que diz estar "velho, mas no obsoleto". 
     O escritor de fico cientfica Vernor Vinge e o futurlogo Ray Kurzweil, hoje lotado no Google, popularizaram um termo cunhado pelo matemtico hngaro radicado nos EUA John von Neumann: a singularidade. Ela designa o momento em que os computadores no s sero mais inteligentes que seres humanos, como alm disso nem precisaro de ns, mortais. Vinge, segundo relato de Walter Isaacson em Os Inovadores  Uma Biografia da Revoluo Digital, anuncia essa reviravolta para 2030. Parece improvvel. 
     Depois de ter sido vencido pelo Deep Blue em 1996, o enxadrista do Azerbaijo Garry Kasparov, irritado com a derrota, intuiu uma sada, ao verificar que "os computadores so bons naquilo em que os seres humanos so fracos, e vice-versa". Ele imaginou um torneio no qual no houvesse seres humanos contra mquinas, e sim partidas em parceria. Um campeonato nesses moldes aconteceu em 2005. Os jogadores trabalhavam em equipe com computadores  sua escolha. Nem o grande mestre mais bem ranqueado nem o mais potente computador venceu. Disse Kasparov: "As equipes do tipo ser humano-mquina dominaram at os mais fortes computadores. A combinao de liderana estratgica humana e acuidade ttica de um computador foi avassaladora". 
     No ano passado, o filsofo Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, lanou o livro Superintelligence (Superinteligncia). Apesar de a tecnologia de inteligncia artificial ter evoludo significativamente nas ltimas dcadas, ainda h um limite claro do ponto onde terminam as competncias da mquina e onde comeam as do homem.  como o filsofo Bostrom escreveu: "O nosso desafio , em parte, manter a nossa humanidade: manter os nossos limites, senso comum e a decncia bem-humorada". 
     (O pargrafo anterior pareceu um tanto capenga? Ele foi escrito por um software desenvolvido pelo programador brasileiro Vincius Menezes a pedido de VEJA, com base nas informaes desta reportagem. Antes passou por reviso, para respeitar minimamente o bom portugus, a fluncia do texto e alguma coerncia. Ou seja, para fazer sentido para outros humanos  e no para computadores.) 

ESTES TEXTOS FORAM ESCRITOS POR MQUINAS OU HUMANOS?
Com base na anlise de variveis como o estilo de escrita, informaes determinantes e o tema central, os algoritmos j so capazes de simular a habilidade humana de escrever notcias, romances ou mesmo poemas. Voc  capaz de identificar quem  o autor dos trechos abaixo?

1- "A princpio era uma simples histria de detetive, enriquecida pelo sabor de comdia que, com seu canhestro desempenho, lhe conferiam os cinco estranhos personagens apanhados no dia 17 de julho de 1972 em flagrante delito de invaso da sede do Partido Democrata, em Washington. Depois, Watergate transformou-se numa saga americana"
( ) Mquina 
( ) Humano

2- "Na ltima tera-feira, a Apple divulgou um lucro lquido de 18,02 bilhes de dlares no primeiro trimestre. Os resultados superaram as expectativas dos analistas de Wall Street. A fabricante de iPhones, iPads e outros produtos registrou um faturamento de 74,6 bilhes de dlares no perodo, superior s previses de mercado. O esperado pelos analistas era que a receita fosse de 67,38 bilhes"
( ) Mquina 
( ) Humano

3- "Kitty no conseguiu dormir por um longo tempo. Seus nervos estavam tensos como duas cordas esticadas e mesmo a taa de vinho, que Vronsky a fez beber, no ajudou. Deitada em sua casa, ela continuou vendo e revendo aquela monstruosa cena no campo"
( ) Mquina 
( ) Humano

4- "O tempo, o tempo  verstil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiava provocadoramente, era um tempo s de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros"
( ) Mquina 
( ) Humano

5- "Vermelha e branca  a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face no iguala
E h fragrncia bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala"
( ) Mquina 
( ) Humano

6- "Em sonhos vejo teu belo vulto
Que a aurora desperta do descanso
De dia a forma de um amor oculto
Traz breu terrvel pois j no te alcano"
( ) Mquina 
( ) Humano

7- " a que se sente ante essas coisas que conservando outras guardadas ameaam mais com disparar do que com a coisa que disparam"
( ) Mquina 
( ) Humano

8- "Porm as verdades so claras em tudo
Meus versos sofrem agora de ti, meu opositor
At que veja o velho Bill, eu, mudo
Tua crtica, teu aguilho, e sinto teu torpor"
( ) Mquina 
( ) Humano

O VEREDICTO
0 VEREDICTO
1-  Humano. O trecho  uma reproduo exata das primeiras linhas da reportagem de VEJA sobre o caso Watergate, publicada na edio de 1 de agosto de 1973. 
2-  Mquina. A notcia foi criada pelo algoritmo de uma empresa americana, a Automated Insights, especializada na produo on-line de textos jornalsticos de economia e esportes. 
3-  Mquina. O romance russo True Love (Amor Verdadeiro) foi um dos primeiros a ser escritos com o apoio de algoritmos, em 2008. A obra, de 320 pginas,  uma variao de Anna Karenina, de Tolstoi, com toques de estilo do autor japons Haruki Murakami. Os computadores cruzaram livros dos dois autores para produzir um hbrido. 
4-  Humano. A passagem foi extrada do romance Lavoura Arcaica, do brasileiro Raduan Nassar, de 1975. 
5-  Humano.  a segunda estrofe do Soneto 130 de William Shakespeare, em traduo da crtica teatral Barbara Heliodora. 
6-  Mquina. O poema, aqui em traduo livre do ingls, foi construdo pelo aplicativo Swiftkey, desenvolvido nos laboratrios do MIT, dotado de um algoritmo capaz de mimetizar o estilo de Shakespeare. O soneto, a forma mais simples de poesia, com catorze linhas divididas em dois quartetos e dois tercetos, obedece a padres rgidos - o que favorece enormemente o algoritmo. 
7-  Humano. So versos do poeta brasileiro Joo Cabral de Melo Neto, do poema O Ovo de Galinha, de 1994. 
8-  Mquina. Criao de um algoritmo da empresa Icon, que produz poesias e livros no ficcionais feitos por mquinas. 

OS ALGORITMOS DA VIDA MODERNA
Softwares e robs j so capazes de substituir o ser humano em tarefas como a organizao de produtos em um almoxarifado, a exemplo do que acontece na Amazon, e em boa parte das operaes financeiras das instituies bancrias - mas h algumas atividades nas quais a criatividade e o engenho humano ainda so inimitveis. Conhea trs delas - e confira se esto, ou no, com os dias contados.

RECOMENDAES MUSICAIS
Como faz o algoritmo
 O programa memoriza as preferncias do usurio, como msicas procuradas e quais faixas ele no ouve at o fim.
 As informaes so processadas e examinadas pelo algoritmo, que classifica o gosto musical.
 O software ento busca no banco de dados e na coleo de discos o que pessoas de gosto musical similar costumam ouvir. Assim, indica artistas com chance de agradar a cada usurio.
Exemplos de servio: Apple Music, Spotify e Google Play Music 

Como faz o humano
 Editores especializados (como produtores musicais) tm acesso s escolhas feitas pelo algoritmo, mas as usam apenas como base para tecer opinies.
 Com os dados, definem tipos de msica ideais para ser escutados em determinados momentos (no trabalho ou em casa) e classificam os usurios por grupos
 A sugesto  dada no s de acordo com o que o ouvinte j conhece, mas tambm considera novidades que ele pode curtir (mesmo que no diretamente relacionadas ao seu gosto tpico).  maior a probabilidade de o usurio ser surpreendido.
Exemplos de servio: Songza (do Google), Pandora e recursos do Apple Music

A vitria final ser do:
Algoritmo
S faltam s mquinas dados suficientes (por exemplo, a quais shows a pessoa foi durante a vida ou msicas que ouvia quando criana) que lhes permitam, alm de acertar o gosto conhecido, surpreender, oferecendo algo de que o consumidor nem sabia que gostaria. Mas elas progrediro com o tempo 

PINTURA
Como faz o algoritmo
 O servio simula redes neurais, que copiam as sinapses feitas pelo crebro humano, e cria modelos matemticos baseados no estilo de diversos artistas
 Com essa base, o software analisa imagens de um banco de dados que contm fotografias, pinturas, filmes
 Depois, escolhe as imagens a ser usadas como inspirao para os quadros
Exemplo de servio: Inceptionism, do Google 

Como faz o humano
 reas do crebro relacionadas ao processamento de informaes visuais e ao comando dos movimentos das mos costumam ser mais desenvolvidas em pintores e desenhistas
 Os neurnios deles so mais eficientes em interpretar, combinar e manipular dados visuais
 O lado humano: o talento nato  mesclado ao estado emocional do pintor e a experincias de vida para criar, do zero, os desenhos
Exemplos de artista: so muitos, como gnios do calibre de Salvador Dal e Van Gogh

A vitria final ser do:
Humano
O algoritmo pode ser capaz de pintar. Mas s segue padres, repete o que os humanos fizeram antes. No consegue, portanto, elaborar algo totalmente novo, como inaugurar um estilo de pintura. Na criao, e na paixo com que a arte  feita (e por isso afeta o pblico emocionalmente), jamais substituir o homem

CARROS AUTNOMOS
Como faz o algoritmo
 O veculo  dotado de softwares de geolocalizao e sensores que detectam o que h ao redor
 Um programa de inteligncia artificial cruza os dados e, assim, guia o automvel 
 Imprevistos, como acidentes, geram uma reao automtica e rpida do software, que checa todas as possibilidades de ao a fim de escolher a mais adequada para no causar (ou minimizar) danos
Exemplos de carro autnomo: h modelos do Google, da Toyota, da Mercedes-Benz

Como faz o humano
 Todas as reas do crebro esto envolvidas na direo de um veculo: a mente recebe e processa as informaes visuais e auditivas do ambiente e as interpreta para ter respostas eficazes e rpidas
 Ao deparar com problemas, como um acidente  frente ou um pedestre no meio da rua, as escolhas so feitas de acordo com a formao moral e tica do condutor  e dependem tambm de seu treinamento e habilidade
Exemplos de profissional: taxistas e motoristas de servios como o Uber, de caronas pagas

A vitria final ser do:
Algoritmo
A mquina  mais rpida em responder a problemas, no desrespeita leis de trnsito, breca com distncia segura e no fecha os outros no trnsito. S falta resolver quem ser o culpado por acidentes  se a fabricante ou o dono do veculo. Mas isso  detalhe: estudos mostram que, se todos os carros fossem automatizados, haveria menos atropelamentos, batidas e congestionamentos .

A BATALHA DOS ALGORITMOS MUSICAIS
Compare os trs servios mais populares de streaming de msica, nos quais se paga uma mensalidade que d direito a todo o catlogo. O que  igual em todos: a base para conquistar clientes  o uso de algoritmos para recomendar novos discos e artistas que podem ser de interesse do usurio.

APPLE MUSIC
Lanamento: 2015
Quantidade de msicas: 30 milhes
Exemplos de contedo exclusivo: Taylor Swift (lbum 1989), Dr. Dre (lbum The Chronic) e Pharrell Williams (single Freedom.)
Qualidade do som: 256 kbps [*Taxa que mede a quantidade de bits de informaes transmitidas por segundo] (pelo fato de a transmisso ser mais lerda, a qualidade do som  reduzida para no travar o programa).
Forma de recomendao: Primeiro, o programa pergunta ao usurio quais so seus interesses musicais e depois o algoritmo detecta os discos e artistas ouvidos ao longo do tempo;  a anlise desse comportamento que guia as indicaes de msica. Alm disso, h uma parte com listas feitas por curadores humanos.
Nmero de usurios: No informa (mas  o que tem menos entre os trs)
Pases em que est: Mais de 100, incluindo o Brasil
Preo: 4,99 dlares (cerca de 16 reais) a 7,99 dlares (cerca de 25 reais), no pacote familiar
O que faz a diferena: O toque humano - h playlists feitas por curadores (normalmente artistas convidados) - e a rede social Connect, que interliga usurios a msicos e bandas, como o rapper Drake e o Pearl Jam.

SPOTIFY
Lanamento: 2008
Quantidade de msicas: 30 milhes
Exemplos de contedo exclusivo: Artistas como Lily Allen e John Legend j fizeram o Spotify Sessions, pocket shows disponveis apenas no programa; e ainda conta frequentemente com lanamentos exclusivos de lbuns, como o do brasileiro Gusttavo Lima e o do americano Pitbull, na semana passada
Qualidade do som: 320 kbps* (no servio pago; quanto mais rpido o streaming, menor a probabilidade de a qualidade do som diminuir)
Forma de recomendao:  O algoritmo  o menos preciso dos trs  por isso, em vez de sugesto individual, o forte do servio  separar os usurios em grupos, como o de interessados por "sertanejo" ou o dos que ouvem "msica durante corrida ao ar livre", e assim fazer a recomendao
Nmero de usurios: 75 milhes
Pases em que est: 58, incluindo o Brasil
Preo: Grtis a 14,90 reais na conta premium
O que faz a diferena: Permite acompanhar a letra das msicas e ter uma prvia de trinta segundos de cada faixa.

GOOGLE PLAY MUSIC
Lanamento: 2011
Quantidade de msicas: 30 milhes
Exemplos de contedo exclusivo: O grupo brasileiro Racionais MCs
Qualidade do som: 320 kbps* (h a opo de baixar a velocidade, caso a conexo esteja ruim; assim, a cano trava menos, mas a qualidade do som  reduzida)
Forma de recomendao: O algoritmo compila informaes da conta do usurio e da atividade em outros servios do Google (como o YouTube e o site de buscas) para indicar as provveis faixas de interesse a cada pessoa. Mp quesito eficincia da mquina,  o melhor dos trs
Nmero de usurios: No informa (mas  menor que o do Spotify)
Pases em que est: 59 incluindo o Brasil
Preo: 14,90 reais por ms
O que faz a diferena:  possvel armazenar at 50.000 faixas na nuvem gratuitamente. Pelo servio de "concierge", recebem-se recomendaes musicais de um especialista (humano, claro)


6#6 PERFIL  LICENA PARA MANDAR
O Conselho Pblico Olmpico era uma instituio sem relevncia at Luiza Trajano assumir o comando com a desenvoltura de empresria muito bem-sucedida.
THIAGO PRADO

     Faz parte do modus operandi de Dilma Rousseff pr em cargos cruciais mulheres, digamos, assertivas como ela.  assim no Ministrio da Agricultura, no qual pontifica a senadora Ktia Abreu, fazendeira do Tocantins e clebre compradora de brigas, que se bandeou da oposio para o governo. Era para ter sido assim na Petrobras, na qual Graa Foster foi alada  presidncia com fama de chefe mandona e acabou empreendendo a gesto temerria que afundou a empresa enquanto o propinoduto revelado na Operao Lava-Jato funcionava a todo o gs. A pouco mais de um ano da Olimpada do Rio, a voz de comando da organizao dos Jogos cariocas tem sotaque forte do interior de So Paulo e vasta experincia executiva: indicao de Dilma, com quem mantm linha direta, Luiza Helena Trajano, 63 anos, dona da rede varejista Magazine Luiza, foi nomeada em junho para o lugar do demissionrio Henrique Meirelles como presidente do Conselho Pblico Olmpico (CPO), o rgo encarregado de integrar as participaes dos governos federal, estadual e municipal no complicado evento e fiscalizar os projetos em que estejam envolvidos. Luiza entrou, e tudo mudou no CPO. "Com Meirelles, o conselho no tinha poder, era uma espcie de rainha da Inglaterra. Com Luiza, est virando um rgo influente. Ela dispe de um acesso  presidente que ningum mais tem", afirma um funcionrio prximo do processo decisrio. 
     Luiza s no foi ministra porque no quis  a pasta da Micro e Pequena Empresa ficou reservada a ela por muitos meses, at ser entregue a Guilherme Afif. Agora, na presidncia do CPO, tem carta branca para tomar decises, inclusive sobre a agenda de visitas da prpria presidente  foi ela quem cuidou da ltima ida de Dilma ao Rio, para tratar de Olimpada, um tema hoje valorizado pelo governo pela conotao positiva. A prxima, por sinal, est marcada para 5 de agosto, quando faltar exatamente um ano para o incio dos Jogos. Nas reunies que j teve com os engravatados do CPO, a executiva, avessa a formalidades, interrompe sumariamente explicaes malformuladas, venham de quem vierem. Criticou sem meias palavras um vdeo institucional sobre venda de ingressos  por sinal produzido pela mesma agncia de publicidade que atende  sua empresa. 
     Nos encontros a portas fechadas, solta frases como: "Voc est fazendo tudo errado" e "Por isso a Copa do Mundo no deu certo". Dilma? No, Luiza. s vezes, at sem querer, passa por cima de liturgias bsicas da relao com tantas esferas de poder. No ms passado, deu a palavra a Sidney Levy, diretor-geral da Rio 2016 e nmero 2 do Comit Olmpico Brasileiro. O presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, estava presente e no foi convidado a discursar. Um ato de pura distrao, mas Nuzman manteve-se de cara fechada at o fim da reunio. Depois disso, Luiza tornou-se mais cuidadosa (veja a entrevista), tanto em relao ao presidente do COB quanto ao prefeito do Rio, Eduardo Paes, que at ela chegar, por falta de concorrncia, era quem mandava em quase tudo. "Ela gosta de falar muito e de cobrar, igual a mim.  uma pessoa com viso e real noo do que representa a Olimpada para o pas", elogia Paes sobre sua agora co-comandante. 
     Se precisar, saca de uma alentada rede de contatos para ajudar em outras reas. Com a Panasonic, que  patrocinadora dos Jogos e sua velha conhecida do varejo, est negociando teles maiores do que os inicialmente encomendados para a festa de abertura dos Jogos, no Maracan. Sua relao pessoal com Claudia Sender, presidente da TAM, foi fundamental para a captao de patrocnio da empresa, que tambm vai transportar a tocha olmpica pelo pas e ainda dar 20 milhes de reais em descontos de passagens areas para o deslocamento de atletas e pessoal. 
     O currculo de Luiza a habilita a ter ideias rpidas e ousadas. Desde que assumiu a rede varejista Magazine Luiza, em 1991, o faturamento pulou de 100 milhes para 11,5 bilhes de reais  um caso de sucesso nos negcios que  foi objeto de estudo na Harvard Business School. A empresa, que tinha apenas trinta lojas no interior de So Paulo, hoje possui 756 unidades em todo o pas; curiosamente, o Rio, justamente o posto de comando mais visvel de Luiza no momento,  uma das poucas grandes cidades ainda sem lojas da sua rede. Nascida em Franca, interior de So Paulo, viva, com trs filhos e quatro netos, Luiza diz que dorme pouco e se dedica ao trabalho quase vinte horas por dia. Seu nico esporte  pilotar lancha e jet ski, mas tem planos para os Jogos Olmpicos. "Quero assistir s competies de hipismo. Estou curiosa. Aprovei muitos oramentos e s a fui descobrir que h gasto para mdico de cavalo, transporte do cavalo. No fazia ideia", diz. Ela aguarda ansiosa a cerimnia de abertura: "Vai ser linda. Estamos aprovando os oramentos finais". Enquanto a Olimpada no comea, vai dando ordens. "Cheguei para enquadrar esses meninos", disse recentemente a um interlocutor, em tom de brincadeira  mas no muito. 

"APAREO MAIS POR SER MULHER"
Em sua primeira entrevista desde que se tornou presidente do Conselho Pblico Olmpico, Luiza Trajano se mostrou animada e caprichou na diplomacia.

Como a senhora entrou na organizao da Olimpada? 
Estou nela j h trs anos. O presidente Nuzman (Carlos Arthur Nuzman, do Comit Olmpico Brasileiro) queria pr uma mulher no conselho diretor da Rio 2016 e reforar questo da governana. Todos falaram para ele que eu entendia de gesto, e  verdade. A ala negativa ainda levantou: "Mas o que ela entende de esporte?". Eu no sou do esporte, sei disso. Meu objetivo  outro. A Olimpada pode aumentar muito o turismo no Brasil, por exemplo, e sou uma apaixonada por gerar empregos. 

Qual a diferena entre aquela funo e a de agora, na presidncia do CPO? 
Recebi o convite da presidente Dilma Rousseff porque tenho essa mania de querer juntar todo mundo. E o trabalho do conselho  justamente fazer a ligao entre os poderes federal, estadual e municipal,  acompanhando o cronograma das obras, fiscalizando e elaborando estratgias. 

Faltando pouco mais de um ano para os Jogos, algo a preocupa? 
A comunicao est muito fraca. A gente ainda no conseguiu explicar direito ao pas como  a organizao, qual a funo dos rgos envolvidos. Precisamos montar uma estratgia. S a comunicao do prefeito Eduardo Paes  benfeita. 

Paes vinha comandando tudo. Sua chegada causou algum desconforto? 
Pergunte para ele, n? Mas no assumiria se ele no estivesse de acordo. Estou  impressionada com o empenho do prefeito. Trabalha desde cedo at tarde da noite, resolve tudo. 

A senhora tambm ajudou muito a buscar patrocnios... 
Tentei ajudar em todas as dificuldades, e realmente o patrocnio estava baixo. Eu fui atrs. Mas apareo mais por ser mulher. O presidente Nuzman tambm faz muito, quero que voc coloque isso. 

Por qu? 
Tenho muito cuidado ao falar dele. O Nuzman  importante em tudo. No quero que parea que o mrito  s meu. No fale mal do Nuzman. 
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7# ARTES E ESPETCULOS 22.7.15

     7#1 ARTE  CAADORES DE NUVENS
     7#2 CINEMA  PROBLEMINHA RESOLVIDO
     7#3 LIVROS  A DESTRUIO DO MITO
     7#4 VEJA RECOMENDA
     7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  RAZES CONTRA O IMPEACHMENT

7#1 ARTE  CAADORES DE NUVENS
Uma bela mostra em So Paulo atesta como os ingleses  com o fabuloso Turner  frente  revolucionaram a arte com suas brutais pinturas de paisagem.
MARCELO MARTHE

     Na Inglaterra do incio do sculo XIX, at as paredes da Academia Real das Artes  ou principalmente elas  sabiam que os dois maiores pintores do pas se detestavam. A rivalidade entre J.M.W. Turner (1775-1851) e John Constable (1776-1837) explodiu numa reunio na veneranda sociedade artstica. Constable resolveu tirar um quadro de Turner da parede onde aparecia em destaque e, no lugar, ps uma tela pintada por ele mesmo. Turner remoeu a desfeita por meses at dar o troco com veemncia to espetacular quanto a das cenas de tempestade que fizeram sua fama. Em evento com a presena de vrios artistas, trabalhos dele e de Constable foram expostos lado a lado. Em um lance de efeito, Turner surgiu de surpresa e tascou um borro vermelho sobre a prpria tela, que retratava uma cinzenta borrasca martima. Perto daquela mancha escandalosa, o quadro do inimigo virou uma coisinha sem brilho. Dias depois, o gesto aparentemente tresloucado ganhou sentido: com um retoque, o virtuoso Turner transformou o borro em uma bia vermelha  deriva no oceano. Constable acusou o golpe: "Ele veio aqui s para disparar uma arma contra mim". Os dois podiam no se bicar, mas comungavam da f em uma vertente temtica cara  arte: a pintura de paisagem. Nessa seara, a Inglaterra de ento no tinha rival. A partir deste sbado, 18, os brasileiros podero comprovar isso na belssima mostra A Paisagem na Arte: 1690-1998  Artistas Britnicos da Coleo da Tate, na Pinacoteca do Estado, em So Paulo. 
     Embora o acervo de 110 obras vindas da galeria londrina Tate Britain cubra mais de 300 anos, sua parte essencial se concentra no perodo de 1780 a meados do sculo XIX  a chamada Idade de Ouro da pintura inglesa de paisagem. At seu advento, proliferavam imagens de pastoreio e tentativas de emular cenas clssicas. A ascenso da Inglaterra ao posto de maior potncia do mundo, impulsionada pelas conquistas martimas e pela Revoluo Industrial, coincidiu com uma guinada na pintura do pas. Artistas como Constable e Turner estabeleceram uma gramtica da violncia: diante de suas aluses brutais a cataclismas e fenmenos meteorolgicos, o espectador sente deleite. As nuvens so o elemento que unifica essas pinturas: a reproduo de cmulos-nimbos e outras formaes ocupa boa parte das telas. Para Constable, as nuvens tinham o papel de um rgo que conferia alma  pintura. Mas h outra explicao prosaica para esse apreo. "Como o tempo na Inglaterra  quase sempre brusco, vigiar as nuvens  obsesso nacional", diz o curador Richard Humphreys. 
     A certa altura, a contundncia visual converteu tais cenas em item de entretenimento. Recriao sensacionalista da catstrofe causada pela erupo do Vesvio na Itlia de 79, a tela A Destruio de Pompeia e Herculano, pintada por John Martin em 1822, exercia no pblico encanto prximo ao que um filme como Jurassic World provoca nas plateias de hoje. Originalmente, foi exibida numa exposio popular de curiosidades fantsticas. 
     Seria um erro, claro, colocar toda a pintura de paisagem inglesa no mesmo balaio da obra apelativa de John Martin. Alm de Turner e Constable, artistas como Edwin Landseer e George Stubbs fizeram do gnero um painel das inquietaes de seu tempo. O que movia os pintores era um misto de angstia e excitao com os avanos da cincia e a industrializao. No  toa, o maior incentivador de Turner foi algum em si contraditrio: o crtico John Ruskin (1819-1900) era ao mesmo tempo um terico visionrio e um retrgrado que abominava o progresso ingls. 
     No fundo, os mestres da paisagem acenavam com a elevao espiritual: a fria da natureza simbolizava o mistrio das foras divinas. Na viso dos pr-rafaelitas, tendncia que sucedeu a gerao de Turner e Constable e pregava a volta  pureza da arte de antes do Renascimento (da a referncia ao italiano Rafael), Deus morava nos detalhes. Em vez de cenas grandiosas, seus adeptos buscavam o sublime nas mincias enigmticas. Em Vale do Descanso, John Everett Millais retrata com realismo o flagrante inslito de duas freiras abrindo uma cova num cemitrio. 
     Os pr-rafaelitas jamais igualaram a obra monumental de Turner. Como se v em Sr. Turner, cinebiografia recm-lanada em DVD (veja o quadro ao lado), ele rabiscava os motivos de seus quadros num bloquinho, ao ar livre, e retinha tudo o mais  inclusive as cores e nuances de luz  na memria. Na maturidade, passou a dissolver cada vez mais os contornos e tons de suas telas. O pblico odiou: a radicalizao s podia ser sinal de que Turner estava cego ou louco. Mas foi sua produo tardia que garantiu a fama na posteridade. 
     Na verdade, era Turner quem estava  frente na histria da arte. Assim como os ingleses fizeram sua bem-sucedida Revoluo Gloriosa um sculo antes da to festejada mas sangrenta Revoluo Francesa, de 1789, ele antecipou a dissoluo de formas e cores que os impressionistas franceses fariam com barulho depois. Sua obra tambm foi um pressgio da pintura abstrata e do expressionismo de um Jackson Pollock. No frenesi criativo, Turner dava cusparadas e espirrava tinta nas telas. Valia tudo, menos fazer cara de paisagem. 

A ARTE ETREA DE UM HOMEM BRUTO
No papel-ttulo de Sr. Turner, filme do diretor ingls Mike Leigh que sai agora em DVD, Timothy Spall surge feio, atarracado, grosseiro, com dentes pavorosos: o homem  o inverso de sua arte. A pintura de Turner  etrea, fugidia, arrebatadora. J o pintor, esse , no desempenho glorioso de Spall, de uma fisicalidade bruta e intrusiva. Turner raspa as telas com suas unhas feiosas, farta-se com uma cabea de porco, ronca, grunhe e resfolega, apalpa o seio da empregada sem pedir licena (e a empregada, lindamente interpretada por Dorothy Atkinson, olha para ele com devoo).  Quando as filhas o visitam, ele age como se estivessem extraindo-lhe um dente. Com seu pai, contudo, ele  s doura. Ao conhecer Sophia Booth, uma viva gordota e simples (e encantadora), ele diz que ela  uma mulher de uma beleza profunda. No  um galanteio: Turner est olhando para ela como olha para o mundo, identificando algo de sublime onde outros s vem o banal. Fotografado de forma a reproduzir os estilos pictricos cujo caudal alimentou Turner, o filme de Leigh  uma maravilha. Faz jus ao artista, e compreende o homem.
ISABELA BOSCOV


7#2 CINEMA  PROBLEMINHA RESOLVIDO
Apesar do histrico turbulento da produo, Homem-Formiga  um sucesso criativo muito maior que a soma de suas minsculas partes;
ISABELA BOSCOV

     Para deixar um f de quadrinhos amuado no  preciso mais do que demonstrar ignorncia acerca desse universo  basta dizer, por exemplo, que um super-heri cuja superpropriedade  ficar do tamanho de uma formiga  uma ideia meio besta, ou pelo menos sem nenhum sex appeal. 
     O Homem-Formiga, rebater o aficionado,  um dos Vingadores originais e j estava l, na capa do gibi, na primeira edio em que o supergrupo da Marvel surgiu, em 1963. E um clssico, e  capaz de coisas superincrveis quando veste o traje que o miniaturiza e o torna to veloz, potente e mortal quanto uma bala. E, no entanto, a deciso de dar a esse heri diminuto o seu prprio filme foi desde o incio alvo de ceticismo dentro da prpria Marvel. Foi, tambm, objeto de muita discrdia: depois de treze anos a cargo dos ingleses Edgar Wright e Joe Cornish, o roteiro ocasionou uma briga  e o projeto voltou quase  estaca zero j s vsperas da filmagem. Indcio de que essa era por princpio uma m ideia, certo? De maneira nenhuma: Homem-Formiga (Ant-Man, Estados Unidos, 2015), j em cartaz no pas, est para esta nova fase da Marvel como o primeiro Homem de Ferro esteve para o lanamento do estdio, em 2007   uma surpresa, uma inovao na abordagem do gnero e um sucesso criativo. 
     Hank Pym, o cientista que inventou a tecnologia para reduzir o espao entre os tomos e assim condensar seres vivos  e foi o Homem-Formiga original , no mais veste seu traje especial, que d ainda ao usurio a capacidade de comandar exrcitos de formigas de vrias espcies. Ciente dos perigos que sua inveno poderia trazer nas mos erradas, Pym (Michael Douglas) tanto fez para escond-la que acabou sendo afastado do comando de sua prpria empresa por seu ex-pupilo Darren Cross (Corey Stoll) e por Hope (Evangeline Lilly), a filha que no o perdoa por um erro do passado. Cross, porm, est a poucos passos de conseguir replicar o invento, e  preciso det-lo antes que ele vire a supervespa Jaqueta Amarela. Pym acredita ter um candidato para a tarefa: Scott Lang (Paul Rudd), um engenheiro eletrnico que acaba de sair da priso por ter se apropriado sem permisso de dinheiro que no lhe pertencia  mas para restitu-lo a pequenos investidores prejudicados pela ganncia de uma corporao. Lang tem, portanto, senso de justia. Tem tambm habilidades de gatuno, e motivao: quer merecer o respeito da filha pequena. E est na pindaba, cada vez mais tentado a voltar  vida de crime. Basta Pym promover um encontro casual entre Lang e o traje miniaturizador e pronto, eis a o novo Homem-Formiga (nas revistinhas, Lang assumiu o personagem em 1979).  
     Esse, claro,  o cenrio genrico de todo filme de super-heri. Homem-Formiga, porm, o utiliza apenas como moldura para enquadrar uma comdia (no interior da qual h ainda um filme de roubo). At as cenas de ao so cmicas: batalhas colossais, edificaes vindo abaixo, trens descarrilando; corte para a escala humana e tudo o que se v  uma minscula comoo entre os brinquedos de um quarto de criana. Entende-se, agora, por que a Marvel mirou em Paul Rudd, cuja carreira, depois de um incio tateante como gal, deslanchou em comdias como O ncora, O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grvidos, Eu Te Amo, Cara e O Idiota do Meu Irmo. 
     Grande parte do xito de Homem-Formiga deve-se justamente s vrias digitais que se foram acumulando no projeto: de Edgar Wright (roteirista e diretor de Todo Mundo Quase Morto, uma pardia brilhante dos filmes de zumbi) e Joe Cornish (de Ataque ao Prdio, em que a garotada de um conjunto habitacional derrota uma invaso aliengena), o script herdou o implacvel senso de absurdo britnico. Com Adam McKay (de O ncora) e o prprio Rudd, a dupla que apagou o incndio deflagrado com a sada de Wright, ganhou o ritmo das comdias americanas feitas em coletividade (como todas aquelas de que Rudd participou), nas quais a principal pea humorstica no  o protagonista, mas sim os coadjuvantes: em Homem-Formiga,  Michael Pea, conhecido como um excelente ator dramtico, quem rouba a cena no papel do lder de um trio de idiotas do crime completado por David Dastmalchian e pelo rapper T.I. Dois novatos, Gabriel Ferrari e Andrew Barrer, trataram de integrar todas essas influncias e exigncias em um trabalhoso polimento do roteiro. E em Peyton Reed, de Sim, Senhor e Separados pelo Casamento, o filme tem um diretor com traquejo, mas sem a persistncia autoral que colocou Edgar Wright em conflito com o estdio. Trata-se quase de justia potica:  dessa forma, afinal, que trabalham as formigas  em grupo, cada uma contribuindo com sua parte, para que o todo resulte maior do que a soma delas. 


7#3 LIVROS  A DESTRUIO DO MITO
Depois de 55 anos escondido num cofre, livro sai com tiragem espetacular de 2 milhes de cpias e abala a cultura americana com uma revelao estarrecedora.
ANDR PETRY

     O antroplogo Claude Lvi-Strauss (1908-2009) dizia que os mitos so feitos de oposies binrias claras, nunca de elaboraes complexas, ambguas. Talvez por isso o personagem Atticus Finch tenha se tornado um mito nos Estados Unidos. Figura central de O 5o/  para Todos, lanado pela escritora Harper Lee em 1960, Atticus Finch  um advogado de 52 anos que desafia o racismo visceral de sua cidadezinha no Alabama na dcada de 30 ao defender um negro falsamente acusado de estuprar uma menina branca. Atticus  um homem irretocvel: ntegro, tolerante, sbio, corajoso. Os americanos  os brancos, pelo menos  adoraram Atticus desde o primeiro momento. Pais deram seu nome aos seus bebs. Jovens cursaram a faculdade de direito estimulados pelo seu exemplo edificador. Narrado por Scout, a simptica e peralta filha de Atticus, ento com 6 anos, o livro fez um sucesso arrebatador. Ganhou o Pulitzer. Virou filme, no qual Atticus  encarnado pela figura impoluta de Gregory Peck. Vendeu 40 milhes de exemplares, rende mais de 3 milhes de dlares anuais  autora ainda hoje e j foi considerado o segundo livro mais influente nos EUA, depois da Bblia. E Atticus, com seu idealismo inoxidvel, entrou no DNA cultural dos Estados Unidos e adquiriu status quase sagrado no imaginrio americano. 
     Na semana passada, esse mundo ruiu. Go Set a Watchman, o novo livro de Harper Lee, que conta a saga de Atticus e sua famlia vinte anos depois, chegou s livrarias americanas com uma tiragem espetacular de 2 milhes de exemplares e uma revelao estarrecedora: Atticus virou um racista ranzinza e escandaliza a prpria filha, agora com 26 anos, com sua inescrupulosa defesa da segregao racial. A certa altura, pergunta  filha, que mora em Nova York e foi visit-lo no Alabama: "Voc quer um bando de negros nas nossas escolas e igrejas e teatros?". Estamos agora na dcada de 50, quando comea a emancipao dos negros. Atticus no aceita a deciso da Suprema Corte de acabar com a segregao racial nas escolas. O homem admirvel, tolerante e generoso, o pai idolatrado pela pequena Scout, no existe mais, se  que um dia existiu. 
     Go Set a Watchman, que chega ao Brasil em outubro pela editora Jos Olympio sob o ttulo V, Coloque um Vigia, foi escrito antes de O Sol  para Todos. Na poca, Lee mostrou os originais ao seu editor e foi aconselhada a refazer a histria, recuando vinte anos, de 1950 para 1930, e contando-a sob o ponto de vista da pequena Scout. Lee trabalhou por dois anos na mudana. Em O Sol  para Todos, o enredo desdobra-se numa poca em que os americanos duelavam com as agruras da depresso, e a supremacia branca, asfixiante e implacvel, corria sem contestao. No novo velho livro, a trama transcorre num perodo em que os negros j esto nas ruas exigindo o direito ao voto e o fim da segregao racial. 
     Por trs da obra, h um mistrio da vida real. Desde o sucesso de O Sol  para Todos, Lee disse que jamais voltaria a publicar um livro. Avessa  fama e ao assdio da imprensa, a escritora vivia longe dos holofotes em seu apartamento em Nova York at sofrer um severo derrame cerebral em 2007. Ento, mudou-se para uma casa de idosos perto de sua cidade natal, Monroeville, no Alabama. Hoje, aos 89 anos, est confinada em uma cadeira de rodas, quase cega e ouve  to mal que no pode falar ao telefone. Por que razo, depois de dizer por anos a fio que no publicaria mais nada, Lee teria decidido agora, j entrevada num asilo, lanar o livro que escondeu num cofre por mais de 55 anos? 
     As suspeitas recaem sobre a advogada Tonja Carter. At pouco antes de sua morte, no ano passado, aos 103 anos, Alice, tambm advogada e irm mais velha de Lee, exerceu o papel de guardi dos direitos autorais e da privacidade da irm famosa. Tonja Carter substituiu Alice no comando dos negcios literrios de Lee e encontrou os originais de Go Set a Watchman. Tonja j contou verses contraditrias sobre a descoberta, mas garante que Lee autorizou a publicao do livro. Monroeville, com 6000 habitantes, est fervendo com o mistrio. Uns acreditam na boa-f de Tonja e confiam que Lee aceitou conscientemente a publicao. Outros apostam que a escritora, j desorientada pela nvoa da velhice, est sendo manipulada pela advogada gananciosa, embora uma investigao oficial tenha concludo que Lee ainda sabe o que faz. Enquanto no se esclarece a dvida em definitivo, resta a perda irrecupervel de um dolo da cultura americana. 
     A destruio de um mito  sempre um choque, mas o desmanche de Atticus  mais doloroso porque toca no nervo exposto da vida americana: a questo racial. Atticus, com seu comportamento exemplar naqueles anos insanos de sangue e linchamentos,  o espelho no qual os americanos gostam de se ver.  mais do que achar um manuscrito indito de Machado de Assis contando que Capitu era cega e seus olhos de ressaca no passavam de uma disfuno criada pela deficincia visual. Seria uma revelao brutal e mudaria os contornos da dvida que nos corri como cido h mais de um sculo: afinal, Capitu traiu Bentinho ou no? Ainda assim, a cegueira de Capitu no abalaria a imagem que temos de ns mesmos. A revelao sobre Atticus quebrou o espelho americano. Para desfazer o mito de vez, rompeu com a clareza binria de Lvi-Strauss ao deixar uma pergunta inquietante no ar: o Atticus racista de 1950 seria uma reao vingativa  emancipao dos negros enquanto o Atticus de 1930 seria a tolerncia em pessoa porque os negros ainda sabiam o lugar deles? 


7#4 VEJA RECOMENDA

CINEMA
O CONTO DA PRINCESA KAGUYA (KAGUYAHIME NO MONOGATARI, JAPO/FRANA/ESPANHA, 2013. J EM CARTAZ NO PAS)
 Companheiro de gerao de Hayao Miyazaki  o grande mestre da animao japonesa  e cofundador, ao lado dele, do estdio Ghibli, o veterano Isao Takahata fez apenas uma dezena de filmes. Explica-se: como o amigo Miyazaki,  um perfeccionista contumaz, que se vale do desenho animado como uma forma de poesia visual. Este seu primeiro trabalho depois de anos afastado da direo  o mais belo de sua carreira. Um velho cortador de bambu encontra, dentro do tronco de uma rvore, uma diminuta princesa  que vira ento um beb que cresce rapidamente, e que ele e sua mulher decidem criar. "Pequeno Bambu"  uma menina adorvel, que se transformar em uma jovem encantadora, mas triste: convencidos de que ela deve ter um destino nobre, seus pais adotivos levam-na do campo para a capital, para que viva em meio ao luxo e atraia os mais aristocrticos pretendentes. A garota, porm, no esquece a vida de camponesa que deixou para trs, e acaba atraindo para si uma severa punio. O filme  longo, mas hipntico, e de uma beleza deslumbrante na maneira como homenageia os estilos tradicionais japoneses de pintura e gravura.

UMA NOVA AMIGA (UNE NOUVELLE AMIE, FRANA, 2014. J EM CARTAZ NO PAS)
 Bastou as garotas Laura e Claire se olharem, no primeiro dia de escola, para tornarem-se melhores amigas para sempre, ntimas e inseparveis. O "para sempre", porm, dura pouco: ao ficar adulta, Laura adoece e morre pouco depois de se casar e ter um beb. Claire (Anas Demoustier) se sente to arrasada que nem consegue cumprir a promessa feita  amiga, de zelar por sua filhinha e seu vivo, David (Romain Duris). At que um dia se enche de coragem, bate  porta de David e encontra... Virgnia. Bem ao gosto de Franois Ozon, uma ironia inslita sacode a trama: aps ter perdido a mulher, David retomara o hbito de se vestir de mulher. Vencido o espanto, Claire comea a gostar da brincadeira de viajar com Virgnia, fazer compras com ela, ouvir confisses. Mas esconde tudo do marido, Griles (Raphal Personnaz). Claire sabe que h algo complicado na sua amizade com Virgnia  que mais e mais se distancia de sua identidade masculina (embora Duris seja daqueles sujeitos com queixo, gog saltado e uma constante sombra azulada no rosto). Mais ardiloso cineasta francs da atualidade, Ozon prossegue na tima fase que inclui Ricky, Potiche e Dentro da Casa com esta adaptao cheia de volteios de um romance da inglesa Ruth Rendell.

BLU-RAY
GET ON UP: A HISTRIA DE JAMES BROWN (ESTADOS UNIDOS, 2014; UNIVERSAL)
 James Joseph Brown Jr. (1933-2006) era carne de pescoo. Nascido no sul dos Estados Unidos, foi abandonado pela me, espancado pelo pai e criado por uma tia que gerenciava um bordel. Inventor do funk, Brown se tornaria um dos maiores nomes do showbiz. Mas a turbulncia continuou sendo a marca de sua vida pessoal: ele passava msicos para trs e no raro resolvia problemas domsticos no brao. O desafio do cineasta Tate Taylor foi retratar essa dualidade sem perder o carinho pelo personagem. Taylor optou por uma narrativa no linear, em que um determinado episdio do passado do cantor encontra correspondncia em alguma atitude pouco honrosa que ele teria mais tarde. O recurso funciona graas ao carisma do protagonista Chadwick Boseman. O ator agarra o personagem a unha, tanto nos momentos de triunfo  como ao desafiar os Rolling Stones, que roubaram do cantor a honra de encerrar um show de TV  quanto nas horas deprimentes  de espingarda na mo, ele ameaou uma moa por ter usado o banheiro exclusivo de Mr. Brown.

LIVRO
A ILHA MISTERIOSA, DE JULES VERNE (TRADUO DE ANDR TELLES; ZAHAR; 552 PGINAS; 69,90 REAIS E 29,90 REAIS NA VERSO EM E-BOOK)
 O francs Jules-Gabriel Verne (1828-1905) - conhecido no Brasil como Jlio Verne  foi o pai da fico cientfica. Expoente de um tempo em que o mundo se fascinava com os avanos em campos como a astronomia e as cincias naturais, Verne seduziu geraes com a mescla de aventura e celebrao de tais feitos oferecida em obras como Vinte Mil Lguas Submarinas e A Volta ao Mundo em Oitenta Dias. O autor j era um dolo para os jovens quando fez a prpria verso do clssico que marcou sua adolescncia: o romance Robinson Cruso, do ingls Daniel Defoe (1660-1731). Ao retomar o mote do nufrago que recomea a vida do zero, Verne se valeu do esprito moderno caracterstico de sua obra. A Ilha Misteriosa, que ganha reedio nacional com suas ilustraes antigas, narra a saga de cinco personagens que caem com um balo numa ilha remota. Liderados pelo engenheiro Cyrus Smith, eles criam solues tecnolgicas a partir do nada, enquanto lidam com a estranha fora que assombra o local.

DISCO
CURRENTS, TAME IMPALA (UNIVERSAL)
 Banda de um integrante s, o cantor e compositor australiano Kevin Parker, o Tame Impala nasceu com vocais em falsete e influncias das guitarras distorcidas do trio Cream e do som espacial de Syd Barrett, vocalista da fase mais experimental do Pink Floyd. Mas seu rock psicodlico tomou um banho de loja neste terceiro lbum. Currents tem menos guitarras e mais sintetizadores que os trabalhos anteriores. A mudana veio para o bem: como se percebe na faixa de abertura, Let It Happen, a sonoridade do Tame Impala se tornou mais danante e consistente. A converso de Parker ocorreu aps ele participar de Uptown Funk, disco do DJ e produtor Mark Ronson, e declarar-se "tocado" ao reescutar Stayin Alive, sucesso do trio Bee Gees. Canes como The Moment e The Less I Know the Better so, alis, boas tentativas de se aproximar do pop dos irmos Gibb, ainda que estejam longe do efeito chiclete de seus hits. Parker  capaz de construir melodias irresistveis sob camadas de teclados  e tambm no abdica de certa ousadia, como na introduo robtica de Past Life. 


7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
2- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE 
3- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
4- Minha Vida Fora de Srie  3 Temporada. Paula Pimenta. GUTENBERG 
5- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA
6- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
7- Nmero Zero. Umberto Eco. RECORD 
8- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
9- A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD 

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
3- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS
4- S por Hoje e para Sempre. Renato Russo. COMPANHIA DAS LETRAS
5- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
6- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
7- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
8- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA
9- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA 
10- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
4- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
5- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA
6- Gerao de Valor. Flvio Augusto d Silva. SEXTANTE 
7- Como Chegar ao Sim com Voc Mesmo. William Ury. SEXTANTE 
8- Negocie Qualquer Coisa com Qualquer Pessoa. Eduardo Ferraz. GENTE 
9- O Poder da Ao. Paulo Vieira. GENTE 
10- Quem Me Roubou de Mim? Padre Fbio de Melo. PLANETA


7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  RAZES CONTRA O IMPEACHMENT
     1- Convm no sacudir demais o barco Brasil. Eleies regulares e mandatos que s muito excepcionalmente se interrompem identificam democracias maduras e consolidadas. Frequentes interrupes de mandato caracterizam as republiquetas. Caso Dilma seja afastada, dos quatro presidentes eleitos nas urnas na era ps-ditadura (Collor, FHC, Lula e Dilma), dois tero sido atropelados antes do fim do mandato. Cinquenta por cento. O resultado ser igual ao da frgil democracia do perodo 1946-1964, durante a qual, dos quatro alados  Presidncia pelas urnas (Dutra, Getlio, JK e Jnio), dois (Getlio e Jnio) no cumpriram o perodo que lhes cabia.  
     2- No h vislumbre de composio poltica capaz de propiciar sucesso razoavelmente suave, como a formada em torno de Itamar Franco quando Collor foi deposto. O PSDB, que h vinte anos disputa a Presidncia com o PT, descredencia-se como alternativa na medida em que, como o PT ao seu tempo de oposio, aposta no quanto pior melhor.  Para o PT, a ttica fazia sentido. O partido era contra o capitalismo e, em larga medida, contra a "democracia formal", ou "burguesa". No votou em Tancredo Neves em 1985 e ops-se  Constituio em 1988. O PSDB alinha-se com o capitalismo e contribuiu para construir as instituies vigentes. Hoje, volta-se contra a prpria herana ao contribuir para derrubar o fator previdencirio, aderir  irresponsabilidade fiscal em curso no Congresso e, em vrias situaes, pr-se a reboque do despirocado Eduardo Cunha. 
     3- O PT e os movimentos sociais, que perderam as ruas para os movimentos anti-Dilma em meses recentes, tero, ao encarnar o papel de vtima, a oportunidade de ganh-las de volta. O PT desponta como o nico beneficirio visvel, a esta altura, da queda de Dilma. A volta  oposio pode converter-se numa oportunidade cada dos  cus para livrar-se de seus miserveis embaraos atuais. O senador tucano Aloysio Nunes Ferreira admitiu essa hiptese, em entrevista a Bernardo Mello Franco, da Folha de S.Paulo: "Talvez seja o ideal para o Lula. A gente entra no governo e ele fica livre para fazer oposio e sair candidato em 2018". Se Lula faz hoje oposio disfarada a Dilma, imagine-se a volpia com que a far sem disfarces. E como ser fcil fazer oposio, com o poder mal resolvido e a economia em frangalhos. 
     4- A herana de Dilma ser pesada demais, venha a suceder-lhe seja l quem for. A economia, segundo todas as previses, continuar a andar para trs por um bom par de anos, assim como os efeitos da incompetncia na gesto de outros setores. Se ela  que fez o estrago, ela se encarregue de tentar desfaz-lo. 
     5- Ameaas de impeachment confundiam-se perigosamente na semana passada com meras tentativas de revanche dos polticos acusados na Operao Lava-Jato. As operaes de busca e apreenso realizadas pela Polcia Federal deixaram os meios polticos nervosos e abriram caminho para a acusao de que o governo estaria por trs das iniciativas contra senadores e deputados. Da para a farsa de que os processos no passariam de manobras politiqueiras foi um pulo. O presidente da Cmara, Eduardo Cunha, prometeu um segundo semestre difcil para a presidente. Impeachment  moda de Cunha, alimentado por suas motivaes e executado pelos mtodos que vem empregando no Parlamento,  mais do que o pas pode suportar. 
     6- No lugar dos "crimes de responsabilidade" exigidos pela Constituio para embasar os processos de impeachment, at agora se acenou trefegamente com pedidos vazios. Presidentes no podem ser afastados porque so ruins, ou porque no se gosta deles. Na questo das contas pblicas, que rejeitadas eventualmente poderiam caracterizar o crime de responsabilidade, o Tribunal de Contas da Unio tanto faz que vai mas no vai que sua posio se enfraquece. Agora o prprio TCU se enrola com investigaes que atingem dois de seus ministros, um dos quais o presidente da instituio. 
     7- O ps-impeachment arrisca ser ainda mais tumultuado que o momento atual. Qualquer que seja o desfecho, o pas ingressar num tnel escuro.  alto o risco de entronizao de um governo de escassa legitimidade, que por sua vez ser fustigado j no primeiro dia. A radicalizao que se observa na sociedade atingir novos picos. A instabilidade ser a nota dominante por um longo prazo, talvez fatalmente longo. 

